Sabrina Noivas 61 - The Wedding Deception

Nada  para sempre... S o amor! Casamento, beb, divrcio. O plano arquitetado por April era muito simples. Ela queria um beb, no queria um marido. Glen Radway, seu amigo de longa data, estava disposto a colaborar com seu projeto. Ele concordou em casar-se com April, temporariamente. Bem, parecia uma grande ideia, at Glen conquistar o seu amor. Como April podia ter deixado de notar o quanto ele era bonito e sexy? Agora ela precisava de um novo plano: transformar aquele homem em um amante apaixonado!

Digitalizao e Correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Gnero: Romance histrico contemporneo
Publio original: 1997.  Estado da Obra: Corrigida

April Hanson Sonhava Com:
tricotar sapatinhos de beb
ter um beb cheirosinho s seu
ouvir a palavra mame pela primeira vez

Glen Radway Sonhava Com:
champanhe e caviar
um jantar romntico  luz de velas
fazer April v-lo como amante e no apenas como amigo

CAPITULO I

	D-me isto, docinho. No me faa tir-lo a fora.
April Hanson agachou-se, com uma das mos estendidas para o belo e brincalho co de caa. Infelizmente, Maybelline resolvera brincar de esconde-esconde. Acontecia sempre que ela tentava ensinar-lhe a buscar coisas, s que desta vez no era o jornal que estava em jogo. O cachorro esgueirou-se para um lado e, da boca, pendia algo cinzento.
Aproximando-se, April passou a mo sobre a testa respingada de suor. Uma abordagem assim direta no funcionaria. Mas talvez conseguisse distrair Maybelline antes de ele machucar o filhote de esquilo.
Fingindo desinteresse, caminhou em direo  rvore sob a qual restos do ninho se espalhavam pelo cho. Abaixou-se e pegou um graveto. Quando as orelhas de Maybelline se movimentaram, demonstrando interesse, April provocou-o com a vareta, segurando-a atrs das costas e agitando-a de um lado para outro, fora do seu alcance.
Como esperava, o caador no pde resistir. Assim que o bichinho cinzento caiu da boca do co, April arremessou a vareta o mais longe possvel no meio dos arbustos e fingiu que ia atrs dela. O co aceitou o desafio e ps-se a correr.
April pegou o esquilo com cuidado. Felizmente, no estava ferido. Aninhou o animal junto ao peito, para aquec-lo. Os olhinhos sequer estavam abertos, fazendo supor que no tinha mais do que quatro semanas de idade.
 Pobre beb. Voc teve um comeo bastante agitado, no?
Passando o dedo delicadamente sobre o pequenino, April desejou que no estivesse estressado demais com os recentes acontecimentos. Quando ele se encolheu feito uma bola, ela o colocou entre a camiseta e a blusa. Precisava voltar logo para casa e dar um pouco de alimento ao filhote.
Ao montar o cavalo, April levou uma das mos  cintura, protegendo o filhotinho. Estava querendo um beb s seu, e veja s o que acontecia. Se era assim que Deus respondia s oraes, deduzia ento que ele tinha um senso de humor s avessas.
No caminho de volta para o escritrio da colnia, April terminou rapidamente a inspeo, certificando-se das rvores cadas que precisavam ser removidas. Maybelline farejou um monte de folhas secas, achou uma pinha seca, e saiu em disparada com o prmio na boca. April apressou a gua, quando ela parou para mordiscar as folhas de um galho rente ao cho.
      Vamos, Daisy, no estbulo temos feno em vez destas folhas secas e insossas.
Era uma linda manh de primavera. As rvores haviam comeado a florescer. A pequena gua baia, incapaz de conter sua energia, bateu o casco no cho, quando April recusou-se a soltar as rdeas para um galope at o estbulo.
Quando se aproximaram do acampamento, ela notou que os legumes plantados no outono haviam crescido muito em poucos dias. Um rouxinol pousou em meio aos novos vegetais, bicou uma folha da grama seca e levou-a consigo, certamente para forrar seu ninho.
	Ora, ora, parece que o mundo inteiro est repleto de nascimentos e vidas novas.
As orelhas de Daisy eriaram-se ao ouvir sua voz.
	O que voc procura to inocentemente?  perguntou April,.continuando seu monlogo.  No esqueci como voc resolveu badalar pelo campo, procurando um namorado. O velho Grissom no  mais o mesmo desde que voc est fora da sua baia. Do jeito que sou sortuda, voc provavelmente est no cio e terei que pagar uma taxa altssima pelo reprodutor. Pelo menos, voc sabe como agarr-los.
"Diferente de mim", pensou, afagando o pequeno esquilo no colo. "Se tivesse sabido agarrar um companheiro, estaria casada e teria um bando de filhos agora". April suspirou. No entanto, aos trinta e seis anos, o som de seu relgio biolgico no estava apenas avisando, mas ia descompassado feito um louco.
Amava as crianas com as quais convivia em seu trabalho como diretora de atividades na colnia, mas no sabia se conseguiria passar mais uma temporada vendo os pais exibindo seus filhos.
	Voc quer filhos? Fique com os meus.
Ao parar diante da loja, seu scio saa para o deque. Glen Radway ficou ali, olhando para ela... ansiosamente.
	Qual  o problema?  ela perguntou.
	O que voc acha de jantar e ir ao cinema hoje  noite?  sugeriu ele, como o fizera todos os dias durante os dois ltimos anos.
E, como sempre, ela ignorou a pergunta.
	Falo srio, qual  o problema?
	Nenhum. Sua sobrinha ligou.
	Nicole? O que ela queria?
Glen, o grande amigo de sua vida, esfregou as sobrancelhas. Ela vira aquele gesto um milho de vezes e, normalmente, significava problemas.  .
	Ela no queria nada. Ela tem algo para contar. Procurou o bolso de trs e puxou um telefone celular.
	Ah, meu Deus, h algo errado. Eu sei.
Ele entregou-lhe o telefone.
	Ento, ligue para ela.
	No.
Ao saltar, Glen ajudou-a, segurando-a pela cintura, e arregalou os olhos, espantado, ao sentir um movimento sob sua blusa.
	Um esquilo  ela explicou.
J acostumado com as criaturas rfs que ela trazia consigo para adotar, no perguntou mais nada. Esperou que ela pegasse o telefone.
April o ignorou.
Os parentes sempre diziam que Nicole era to parecida com ela que poderia ser seu clone. Assim, no era de espantar que a sobrinha de vinte e dois anos ligasse para ela sempre que estivesse em apuros.
	Voc sabe como eu sou diante das ms notcias  disse April a Glen.  Diga-me o que houve para eu me preparar para o pior.
Irritado, Glen sentenciou:
	Voc vai ser tia-av. Est feliz?
Tia-av! Ela era jovem demais para ser tia-av. As tias-avs eram sempre velhas, com mos tortas e cheias de artrites e grossas lentes bifocais. Pela primeira vez, no ano passado, April precisou usar culos depois que comeou a ter dificuldade para ler letras pequenas. Olhou para as mos e examinou as pequenas manchas marrons que vira um milho de vezes e que s agora notava realmente. Sempre presumira que fossem sardas. Mas, e se fossem falta de melanina?
	H algum problema?  Glen perguntou.
Claro que havia. Sua sobrinha estava grvida, e ela no estava!
Glen empurrou seu chapu de cowboy, livrando a testa esfregou as sobrancelhas.
	Tenho apenas trinta e seis anos.
	 verdade, mas Nicole j  uma mulher. Alm disto, ela est casada, ento, no h razo para ficar chateada.
O comentrio era uma referncia velada  reao da me de April ao saber da gravidez de sua irm, no ltimo ano do colgio. A senhora Hanson reagira de modo mesquinho quanto  Esteia ter um beb fora do casamento. As coisas no haviam mudado desde ento. Muitos dos amigos da pequena cidade de Harmony Grove tinham a mesma mentalidade conservadora, e os cus que ajudassem quem fosse contra a tradio.
	E, graas a Deus ela est casada  concordou April.
 Parece que Nicole conseguiu tirar a cabea de John da quele computador, pelo menos uma vez.
Glen estudou-a por alguns segundos, preocupado. Em seguida, colocou o brao sobre os ombros dela.
	Ele no  um mau rapaz, voc sabe.
Ele tinha razo. Talvez o problema com John fosse o cime. Nicole tinha algum com quem comear uma famlia, ela no.  . Creio que ele vai ser um bom pai. Olhou para Glen e sorriu.  Acho bom que ele seja um bom pai. 
Glen sorriu e estendeu-lhe o telefone.
Ligue para Nicole. Ela est louca para contar a novidade. --- Ele pegou as rdeas de Daisy e virou-se para lev-la at o estbulo. Olhando para trs, acrescentou:  E faa como se fosse a primeira vez que estivesse ouvindo a notcia. April segurou o telefone. Sem os culos, os nmeros no teclado pareciam meio apagados quela distncia. Aproximou mais o aparelho e apertou os olhos. Assim era melhor. April sentiu-se, de sbito, tomada pelo pnico. Se ela quisesse ter um beb, era preciso que fosse agora. Se esperasse mais um pouco, j teria cabelos brancos quando a criana estivesse na idade de ir para o jardim da infncia. Era ridculo. Primeiro, passara alguns anos casada com o homem errado. Em seguida, passara outros tantos procurando o homem certo que, por acaso, nunca aparecera. Depois, dedicara quase toda sua energia, trabalhando com Glen, para fazer do acampamento um negcio lucrativo. Assim como os anos transcorreram lentamente, tambm as oportunidades de encontrar um bom marido. A maioria dos homens na sua faixa etria ou estava bem casada ou no incio da crise de meia-idade, procurando mulheres no mnimo dez anos mais novas que April. A cada ano que passava, as escolhas ficavam mais mirradas.
Uma nuvem de poeira chamou-lhe a ateno. Olhando para a estrada de cascalho que levava ao acampamento, viu um pontinho negro. Era um carro. Talvez uma famlia chegando para um fim de semana ao ar livre, dando incio precoce  temporada. Ela esperava que no tivessem um beb, nem uma criana pequena com eles.
Desligou o telefone e empurrou a antena. Ligaria para a sobrinha depois de receber aquela famlia. E iria esforar-se para mostrar-se feliz por Nicole.
Olhando a nuvem de poeira se aproximar, April sentiu a alma mais leve, assim que se ps a agir. "No h melhor tempo do que o presente", dizia Glen.
O pequeno esquilo revirou na sua cintura, reforando o pensamento que trazia consigo.
Ela teria um beb. Um sorriso nasceu-lhe nos lbios e seu corao ficou aliviado com a deciso tomada. Convencer-se era a parte mais fcil. O verdadeiro teste de carter seria seguir adiante com o propsito.
O carro entrou no estacionamento, mas no se tratava de uma famlia com uma poro de crianas adorveis. Era um dos carros do departamento de polcia.
O policial saltou, espreguiou-se e deu uma olhada casual em redor.
	A temporada mal comeou  disse April.  E impossvel que a sra. Turner j tenha do que reclamar.
Ele fechou a porta, pondo a chave no bolso. Caminhando com um porte que parecia forado para algum de estatura to baixa, tamborilou os polegares contra as argolas do cinturo e sorriu. O distintivo do policial, evidentemente polido com cuidado, brilhou  luz do sol. Lia-se Dugg. Ela ouvira dizer que ele era o contador de uma loja de peas para tratores de segunda  sexta. Seu emprego de meio perodo, no entanto, era ao qual se dedicava mais.
	No  seu acampamento que est incomodando a sra. Turner desta vez. Soube que vocs tm um jovem de vida irregular trabalhando para vocs agora.
	Steven  um garoto tentando mudar de vida. No quero que ningum, incluindo voc, refira-se a ele deste jeito.
Ao v-lo empertigando-se e alinhando os ombros, April poderia dizer que cometera um erro. Apesar de ele se esforar para manter a autoridade ali, as botas deixavam-na alguns centmetros mais alta que ele. Este fato e mais o que dissera serviram para diminuir o respeito que ele parecia querer impor. Mas April estava mais preocupada com Steven.
Dugg era um visitante reincidente, por muitas vezes, desde que a anci Bea Turner mudara para a esquina mais prxima do acampamento, no vero passado. Ele parecia deleitar-se com a hostilidade entre os dois vizinhos e, contente, dava origem a repetidas, advertncias e citaes. Algumas vezes, ela e Glen tiveram de comparecer diante do juiz por perturbarem a paz, tudo por causa dos concursos de dana que ela organizava para os adolescentes nas sextas  noite durante a alta estao. A msica parava por volta das onze horas, mas aquele fato jamais impedira o determinado policial de inventar uma outra citao.
A mulher no parara de reclamar desde que se mudara. Cartas e mais cartas para o editor do jornal da cidade, reclamaes para outros moradores, e mesmo a tentativa de um processo contra as atividades barulhentas do acampamento. Felizmente, ningum alm da sra. Turner tinha reclamaes contra eles. No entanto, ela ainda tentava dificultar-lhes a vida.
Como a maioria das atividades aconteciam nos finais de semana, acabaram por conhecer o entusiasta Alexander Dugg mais do que gostariam.
Glen voltou do estbulo e ficou ao lado de April em sinal de solidariedade. O msculo do maxilar repuxado era o nico indcio evidente de seu descontentamento. Sua voz saiu em tom grave.
	H algum problema, policial Dugg?
	Parece que aquele fugitivo do reformatrio estava perambulando atrs do barraco de sua vizinha, ontem. Ela est dando por falta de algumas ferramentas que teria deixado ali.  Fez uma pausa e acrescentou srio:  Elas eram do falecido marido.
O bom humor de Glen desapareceu diante da alegao contra o adolescente que April tinha acolhido. No incio, ele tinha sido contra acolher um menino do reformatrio para trabalhar com eles. Mas, depois de conhecer Steven, deu-se conta de que no devia ter pensado mal dele.
 Steven trabalha muito aqui  ela disse.  No tem tempo, nem quer se meter em apuros.
O menino realmente estivera naquelas imediaes da propriedade no dia anterior, consertando tbuas soltas e batendo pregos que apontavam na cerca de madeira. Mas April no tinha dvidas de que ele ficara do lado de c. Ele estava se esforando para provar a Glen que era um bom menino. No jogaria tudo para o alto, fazendo algo to tolo quanto aquelo que o policial queria insinuar.
	Ento, voc veio aqui fazer uma acusao?
	No, no  repetiu Dugg, abanando as mos.  No h evidncias o bastante. Mas estou aqui para advertir. Talvez voc possa dar uma dica ao garoto. Se estas ferramentas voltarem misteriosamente para a sra. Turner, intactas, ento esqueceremos tudo. Desde,  claro, que nada mais desaparea de sua propriedade futuramente.
April estava prestes a dizer o que ele deveria fazer com aquelas ferramentas, mas Glen apertou seu ombro com firmeza. Quando ela abriu a boca para falar, ele calou o protesto movendo a cabea levemente.
Glen voltou-se para entrar e parou  porta da casa que era uma combinao de loja do acampamento e sala de recreao.  Vamos contar ao Steven sobre as ferramentas da sra. Turner, mas estou certo de que no sabe nada a respeito.  Segurando a porta para April, acrescentou, mais para que Dugg ouvisse:  H muito o que fazer para ficarmos parados aqui.
. Sem uma palavra de despedida, ele a fez entrar depressa e fechou arporta energicamente. Para surpresa deles, a campainha soou e era o policial. Entrou.
Clyde, o empregado de meio perodo, abriu passagem com a cadeira de rodas, ao longo dos brinquedos aquticos a espera dos hspedes de vero. Quando viu quem estava com eles, inverteu a direo da cadeira de rodas.
	Mais alguma coisa?  Glen preferiu as palavras mais
como uma dispensa do que uma pergunta.
O policial caminhou pelo corredor onde Clyde carregava prateleiras de snorquels de plstico e bolas inflveis. Examinava o trabalho como se estivesse prestes a fazer uma avaliao do desempenho do velho cavalheiro. Voltando-se para Glen, perguntou.
	Voc tem alguma bebida gelada?
O chapu de Glen apontou para o refrigerador na parede do fundo, sobre o qual havia um letreiro em vermelho: BEBIDAS GELADAS.
O policial dirigiu-se  geladeira, retirou uma soda e bebeu metade dela antes de buscar uns trocados no bolso para pag-la. J estava indo para a caixa registradora quando parou abruptamente, espiou atravs do vidro do refrigerador, examinando os rtulos das garrafas e latas. A face rsea do homenzinho sorriu com sarcasmo, como se tivesse
perseguido e autuado sozinho um dos criminosos mais procurados da Amrica.
Alexander Dugg estalou os lbios e empinou os quadris ainda mais.
	O que temos aqui?  perguntou Dugg, abrindo nova mente a geladeira.
April gelou. E  claro que Glen tambm viu a lata de cerveja na mo de Dugg.
Pelo sorriso irnico de Dugg, April sups que ele estivesse imaginando as manchetes: "Policial Prende Donos de Acampamento por Venda Ilegal de lcool." Talvez imaginasse at que Lisa LaQuinta, a reprter da televiso, iria entrevist-lo. Se April o conhecia to bem quanto pensava, talvez ele estivesse agora anotando mentalmente que seu uniforme deveria ir para o tintureiro para a ocasio. E ele pediria uma engomada extra. Tambm no ficaria surpresa se ele pensasse que tal publicidade daria um empurro para se eleger o prximo xerife da cidade.
O policial andou at balco, e deps a lata, diante de April.
	Quanto cobra por isto?
	Nada. No vendemos lcool aqui.
	No queira me enganar  disse Dugg, virando a lata para mostrar a etiqueta de preo.  Deixe-me ver sua licena para bebidas alcolicas.
Quando Glen aproximou-se, Dugg tocou a arma que trazia  cintura para assegurar-se de que ela estava ali.
Percebendo a descoberta do policial, Clyde dirigiu-se a eles e limpou a garganta para dizer algo. A expresso de culpa em seu rosto fazia-o parecer, apesar de seus setenta e tantos anos, um menininho segurando um basto de beisebol, do lado de uma janela quebrada.
Ela devia estar sabendo. Clyde sempre dizia que dormia melhor  noite depois de ter "virado uma gelada". Mas no percebera que ele estava guardando as cervejas no refrigerador da loja.
Antes que ele dissesse algo, no entanto, Glen silenciou-o, movendo ligeiramente a cabea.
	Esta  minha.  de uso pessoal.
Para certificar-se de que o empregado no iria piorar as coisas, confessando sua parte na confuso, April distraiu-o, estendendo-lhe o esquilo para que cuidasse dele. Por um momento, Clyde sentiu-se dividido entre as responsabilida-des, mas por fim foi atrs de uma caixa para acolher o bichinho.
	Uso pessoal, nada  contradisse o policial.  Esta lata tem uma etiqueta de preo.
As mos de Glen procuraram as laterais de seu jeans. Com os ps ligeiramente afastados, pronto para a luta, fez April se lembrar de um cowboy pronto para atirar.
	Se voc der uma olhada em tudo  disse ele, a voz baixa e firme , ver que no etiquetamos nenhuma de nossas bebidas. A lista de preos est na porta da geladeira.
A pacincia de seu scio estava sendo testada, talvez mais do que a sua prpria. Era pattico, ter de aguentar aquele tipo de assdio, mas a chegava-se a um ponto que no tinha sentido lutar contra a insanidade. Talvez se admitissem a culpa e se desculpassem adequadamente, o policial fosse embora, satisfeito por ter vencido.
 Olhe  disse April , temos muito trabalho e estou certa de que o senhor tambm. Ento por que no diz quanto temos de pagar e podemos pr um fim a este mal-entenddo?
Puxou a bolsa de sob o balco. Glen tentou det-la, mas j era tarde. Sua carteira j estava aberta e ela contava as notas sobre a frmica. Glen deixou escapar um murmrio frustrado.
Dugg arregalou os olhos.
	Sra. Hanson, a senhora est enganada quanto a minha tica de defensor da lei.
	O qu? Eu s...
Se deixasse que ela dissesse mais alguma coisa, a situao s iria piorar. Glen adiantou-se.
	Creio que minha scia est tentando dizer que est disposta a pagar a multa pertinente.
	Terei de acus-los de vender cerveja sem licena.  Olhou para April.  E tentar subornar um oficial da lei.
Ela tentou protestar, mas Dugg j dizia em alto e bom-tom:  Vocs tm o direito de permanecerem em silncio...  Quando acabou de ler-lhes os direitos, pegou o par de algemas do bolso de trs.
Clyde fez rolar a cadeira at eles, com o esquilo dentro de uma caixa de papelo, esfregando a barba cerrada do queixo.  Glen, preciso falar...
	Precisamos que voc fique aqui e tome conta de tudo at que voltemos. Fique de olho no Steven. Ele j deve estar chegando.
O recado era claro. No diga mais nada, ou os trs acabam indo para a delegacia.
	Levante os punhos  disse Dugg a April.
Olhava desamparada para as algemas que o homenzinho erguia diante dela. Olhando para Glen, como quem fizesse uma splica, ergueu os braos devagar.
Glen sentiu um n na garganta. No ficaria ali parado de jeito nenhum, vendo aquele ano algemar April. Sua mo emergiu e, sem pensar nas consequncias, arrancou o objeto metlico do policial.
	Ei!  Dugg protestou.  Devolva isto aqui.
	O senhor no vai colocar isto nela.
	Muito bem, o senhor pediu. Vou ter que acus-lo de interferir no cumprimento de minhas tarefas.
No era o Mayberry, e Glen duvidava de que o policial fosse obrigado a levar as balas no bolso da camisa. Como Dugg estava agitado e obviamente perdera o controle da situao, Glen sabia que era loucura coloc-lo contra a parede.
	Acuse-me do que achar melhor, mas a moa no usa este tipo de pulseira.
Dugg tomou as algemas de Glen e deu um passo para trs, como se fosse apanhar ao aventurar-se chegar to perto.
	Tenho que pedir que levante os braos.
April postou-se a seu lado, e Glen sentiu o brao dela escorregar em torno de sua cintura.
	No precisa usar isto nele  disse ela.  Ele nunca machucou ningum na vida.
Se o policial no estivesse grampeando seu brao direito, Glen teria sorrido quelas palavras. Ela convenientemente esquecera as vezes que ele a defendera dos colegas briguen-tos, deixando-os com marcas roxas e nariz sangrando.
Ele esperou pacientemente o crculo se fechar no seu brao esquerdo, mas Dugg disse:
	Atrs das costas.
	Ah, por favor, sem gritar!  April comeou a andar, enquanto Glen se virava, para acalmar o policial.
Os olhos de ambos se encontraram, e Glen desejou poder proteg-la agora, como a protegia quando eram crianas.
A porta da cela abriu e April entrou, to enojada agora, como h uma hora, quando abriram-lhes a porta pela primeira vez.
"Ser que Nicole estava em casa?"
Glen escorregou para um canto do banco estreito, preso  parede de concreto. Ela parecia to desalentada, que era tudo o que podia fazer para no tom-la nos braos. Afinal, eles tinham um acordo. Bem, no tinham, mas ele deixava-a pensar que sim. Logo depois que ele voltara a Harmony Grove, para dar incio ao Acampamento Recanto Sereno, com April, ele a convidou para sarem juntos. Ela no perdeu tempo em lembr-lo de que eram amigos e, acima de tudo, scios. Ela no queria atrapalhar a amizade deles como acontecera com seu ex-marido.
April considerava Glen seu melhor amigo, mas ele queria mais do que uma relao de amizade. Acabaria com sua resistncia, mais cedo ou mais tarde. Iria encontrar algum jeito de fazer com que ela deixasse de v-lo como um amigo e comeasse a v-lo como uma paixo em potencial.
Ela sentou-se ao lado dele. Seguindo o impulso inicial, Glen abraou-a e apertou-a contra o peito. Para sua surpresa e prazer, ela no recusou o abrao e deixou-se amparar, suspirando profundamente.
 Nicole vir em vinte minutos  disse ela.  Graas a Deus estava em casa. Se mame descobre, nunca mais me dar sossego.
Levando-se em conta que a sra. Hanson ainda lamentava a indiscrio de sua filha mais velha engravidar ainda no colegial e solteira, ele no tinha dvidas de que April ouviria um sermo por esta contenda com a lei. Chamar a sobrinha para resgat-los ali no evitaria que as notcias chegassem at a me de April. Em uma cidade do tamanho de Harmony Grove, era certo que ela viria a saber do ocorrido.
Uma mecha de seus cabelos loiros acariciava o pescoo de Glen. Ele conteve o riso diante do que ela dissera.
	Houve uma inverso, Nicole pagando sua fiana.
April olhou-o como se no o tivesse ouvido.
	Ela contou a novidade?
	Fingi que estava surpresa.
Aquela proximidade fsica deixava-o inquieto. Glen levantou-se e andou pela pequena cela que dividiam. Aparentemente, o policial Dugg, ou outros como ele, tinham estado ocupados naquele dia, o que deixara a casa cheia. As paredes de blocos de concreto no proporcionavam, muita privacidade, principalmente se o vizinho enjaulado fosse indiscreto e curioso. Em um movimento suave, Glen deu um passo at as grades e confiscou um espelho de bolso de uma mo que se esgueirava para fora.
	Ei, cara, estava s checando o broto!  protestou uma voz masculina.  Pergunte a ela se quer ir danar.
	Ela no est interessada  Glen rosnou.
	Diga a ela que tenho todos os dentes.
Glen guardou o espelho no seu bolso e voltou-se para ver a reao de April. Mas, em vez de falar sobre as condies dentrias do vizinho, parou, atnito, ao ouvir:
	Com manchas nas mos ou no, vou ter um beb.
Ele ficou esttico. No entendera a primeira parte da frase, mas a ltima foi como um chute no estmago, e de chuteiras. O que um homem deveria dizer quando a mulher por quem se interessava, a nica mulher por quem se interessara, diz estar grvida de outro homem? "Se for um menino, d meu nome a ele?" Nem sequer notara que ela estivesse saindo com algum.
	Vou matar o cara  ele murmurou.

CAPITULO II

Deveria parabeniz-la ou manifestar sua simpatia? Ou deveria sugerir que uma ambulncia ficasse a postos quando ela contasse  me, pois as notcias de que a "boa filha" estava grvida, levariam a sra. Hanson a um ataque cardaco.
Em vez disto, falou a primeira coisa que lhe veio  cabea.
	Quem  o pai?
	O pai?
	E, pelo que sei,  preciso de dois para fazer um beb. Havia em sua voz uma ponta de descontentamento, que lhe era impossvel evitar. Entretanto, controlou-se. April sempre confiara nele, e ainda que no gostasse do que ouvira, no queria que ela o exclusse de seus planos.
	Eu, eu no sei  disse ela, levantando-se do banco.  Ainda no.
Embora decidido a respeitar as decises dela, Glen no se conteve.
	Voc no sabe?  Ficou apavorado: ser que ela fora descuidada com seus parceiros ou, o mais importante, quanto  sade.
Ela estava de costas para ele. Virou-a de frente. Os cabelos loiros e curtos moveram-se-lhe sobre a face.
	Voc no sabe?  repetiu ele.
	Vou descobrir  disse ela com convico.  No  que no queira saber a cor de seus cabelos, ou se ele  alto ou baixo. E tenho certeza de que  muito inteligente. Ela se afastou.  Voc est machucando meus ombros.
Glen soltou-a e ps as mos nos bolsos de trs para man-t-las quietas. No era preciso ser muito inteligente para ver o quanto ela era atraente e aproveitar-se de sua confiana. E, aparentemente, ela vinha sendo confiante demais.
	Quer dizer que no saber at o beb nascer? E voc se esqueceu das doenas que h por a?
	Sossegue, Buddy  disse April, como se estivesse ensinando a um cavaleiro iniciante como ficar na sela.
	A clnica de inseminao checa os doadores antes de eles contriburem.
	Clnica de inseminao?
	E. A nica na cidade de Rosemont.
	Voc no precisa de nenhuma clnica de inseminao gritou a-voz da cela ao lado.  Tenho genes fortes.
	Ento, voc no est grvida ainda?
	Por que, voc acha que estou gorda?
Glen comeou a andar de novo. Como ela podia pensar em fazer uma coisa daquelas?
	Voc no pode ir a esta clnica.
April encarou-o por alguns segundos, antes de responder.
	Tenho quase trinta e seis anos, Buddy, e no vou ficar mais jovem. Se quiser ter um beb, a hora  agora.
	Talvez se voc pensasse um pouco mais...    
	No  uma deciso fcil.  Ela se abaixou e pegou o chapu de cowboy que ficara sobre o banco. Alisando a tira de couro, ela acrescentou.  Voc no tem que concordar com o que estou fazendo, mas eu gostaria que voc me apoiasse nesta deciso.
Como podia apoi-la para ficar grvida de um outro homem, mesmo que este fosse um doador annimo?
	E o beb?  ele perguntou.  Voc acha que  justo criar uma criana sem o pai?
	Depois do divrcio, minha me educou-me e a minha irm, sozinha, e somos boas pessoas.
Glen mergulhou no silncio. Stella, a irm mais velha de April, engravidara no ltimo ano do colegial. Ser que procurava a afeio masculina que perdera com o pai ausente?
Por sua vez, April casara-se impulsivamente com o amigo comum deles, Eddie Brock, um semestre depois que Glen ingressara na faculdade. Talvez estivesse procurando a felicidade e o companheirismo que evidentemente faltara na vida de sua me.
Apesar de April ter a fama de ser impulsiva, ele estava certo de que refletira bastante at decidir-se a ter um beb.
Seria uma boa me, com certeza. Era s observ-la com as crianas no acampamento para ver como as amava. E todos correspondiam  sua afeio, alguns dentre os pequeninos choravam, no fim das frias, por ter de deixar a srta. April. Entretanto, Glen preocupava-se por ela estar deixando o corao guiar a razo mais uma vez. Quando agia assim, tudo o que ele podia fazer era ficar a seu lado, tentar proteg-la e esperar pelo melhor.
	Esta clnica fica em um lugar horrvel  declarou ele.  Vou com voc.
Em seguida, apareceu um policial fardado. Ele virou a chave e a porta se abriu.
	Vocs esto livres  disse ele.
Ao sarem, para encontrar Nicole, o homem da cela ao lado gritou.
	Adeus moa bonita. Foi muito bom conhecer voc.
	No fiz nada, Glen. Juro que no.  A voz de Steven afinara, e ele torceu para que o chefe no confundisse a troca de hormnios com culpa. O adolescente olhava para Glen, depois para April, em um pedido silencioso de que acreditassem nele.
Bea Turner saltou do carrinho de golfe e foi equilibrando-se at o portal da loja do acampamento. Glen imediatamente postou-se a seu lado, oferecendo-lhe o brao, mas a anci recusou.
	No preciso de guindaste  disse.  No vou cair na sua propriedade e processar voc.
Steven diria que April e Glen no haviam pensado naquela possibilidade. Assim mesmo, sabia que se recusariam a pensar o pior, acreditando que tudo logo seria resolvido para a satisfao de todos.
	Do que a senhora est dando falta desta vez, sra. Turner?  April apontou o banco vazio, em um convite para se sentarem, mas a vizinha balanou a cabea, apertando a bolsa preta com o cotovelo.
 Algum entrou no meu quintal e pegou meu material de artesanato.  Steven percebeu o olhar significativo que ela lhe lanara antes de continuar.  Eu estava fazendo uma boneca de "E o vento levou..." para a neta de minha irm Eunice. Aquela belezinha adora a cor azul, sabem? Ento eu estava usando uma variedade especial de azul para o vestido e o chapu de Scarlett. Comprei em uma liquidao da ltima vez que Eunice me levou at a cidade.
Steven esperou que ela fosse mais direta, para que pudesse provar sua inocncia e voltar ao trabalho. April e Glen apenas trocavam olhares pacientes, o que a sra. Turner obviamente interpretou como sendo curiosidade sobre seus hbitos de compras.
	Ela vem  minha casa com frequncia  explicou ela , e vamos s compras e em seguida almoamos na cidade. s vezes, vamos at o mercado das pulgas, mas  preciso  ter cuidado quando se compra ali, pois chamam qualquer quinquilharia de antiguidade e cobram mais do que vale.
	O que isto tem a ver com...
Steven comeou a falar, mas April cutucou-o com o cotovelo, e enquanto ele esfregava as costelas, ela perguntou
polidamente.
	E quanto  boneca, sra. Turner?
A velha senhora ajustou os culos de aro azul e olhou-os, antes de fixar o olhar em Steven.
	Bem, eu entrei para tomar um ch gelado e demorei-me mais do que esperava. Havia me esquecido de colocar acar depois de t-lo preparado no dia anterior, ento o acar no ia derreter, com todo aquele gelo. E eu no suporto aquele acar artificial que Eunice diz misturar mais de pressa, mas eu no sei, porque no uso.
Desta vez, foi Glen quem se aproximou esfregando as sobrancelhas.
	E quando a senhora veio para fora...
A sra. Turner empertigou-se e colocou uma das mos sobre a cintura rolia.
Se voc parar de me interromper, meu jovem, acabo de contar o que aconteceu. E, quando voltei alguns minutos depois  seguiu a sra. Turner , o corpo da boneca nao estava l. A entretela e o vestido estavam, mas a boneca de plstico se fora.
Era uma coisa boba demais para merecer um barulho daqueles! Mas April era pacificadora, mesmo em se tratando de sua vizinha. Steven coou o queixo e tentou melhorar o humor da velha sehora.
	A senhora tem certeza que ela no caiu no cho quando a senhora se levantou?
	Tudo estava revirado no cho quando voltei  disse ela.  At a minha espreguiadeira. A nica coisa que no estava no cho era a boneca. E no estava l porque foi roubada  sentenciou, balanando seu livro de bolso na direo de Steven.  Ele deve ter tombado a cadeira na pressa de fugir.
Steven abriu a boca, indignado. J era horrvel ser acusado de roubo, pior ainda ser acusado de roubar uma boneca.
 O que eu ia querer com uma bon...	
Mais uma vez, April cutucou-lhe as costelas com o cotovelo. Apertando a mo contra a cintura, optou sabiamente por no terminar a sentena.
Ele teria gostado de dizer quela maluca o que ela poderia fazer com a boneca, mas April adiantou-se em responder por ele.
	O que ele est querendo dizer, sra. Turner,  que meninos da idade dele no brincam com boneca, ento no h razo para querer peg-la.
A sra. Turner soltou um suspiro forte, antes de sussurrar.
	Ela estava nua!
Se Steven e Glen fossem cachorros, as orelhas teriam eriado.
	Quem estava nua?  perguntou Steven, olhando ao redor. Embora fosse bvio que Glen tentava no demonstrar, ele estava tambm preparado para um visual inesperado. Se aquele fosse um dos momentos de prova da masculinidade sobre o qual o jovem conselheiro falara, ento Steven estava pronto para ele.
 Ora, Scarlett,  claro.  A sra. Turner abaixou a voz e inclinou-se para April.  Sei muito bem como funciona a cabea de um adolescente.
Steven diria que Glen tentava fazer cara de srio. Seu mentor encostou-se na cerca do portal.
	Parece-me que, se um menino quisesse ver o corpo feminino, no precisaria de um brinquedo para isto. Poderia ver formas reais em muitos programas de televiso.
Obviamente, a vizinha no ficara satisfeita com as tentativas deles de explicarem o sumio da boneca. A sra. Turner segurou a bolsa contra o peito e foi se afastando sozinha pelo caminho que levava do portal at o gramado, quando April fez outra tentativa de conciliao.
	Tenho de ir  cidade para comprar algumas coisas para uma festa em famlia. Ficaria contente em poder comprar uma outra boneca e entretela.
	No quero sua caridade. Quero que a pessoa que roubou minhas coisas venha devolv-las e desculpar-se pessoalmente  disse ela, ao subir e acomodar-se no carrinho de golfe.  Eu deveria saber que voc dois iam ficar do lado dele. Acho que devo ligar para o juizado, eu mesma, e relatar o que vem acontecendo desde que o garoto veio trabalhar aqui.
O carrinho roncou, e a sra. Turner bateu em retirada sem uma palavra, o vento inflando sua saia de jrsei florida, expondo as meias trs-quarto que mal camuflavam as varizes.
Steven e Glen perceberam, ao mesmo tempo, a pedra do tamanho de um punho na estrada. A voz de Glen soou calma, mas cheia de autoridade.
	Nem pense nisto.
Steven cerrou as mos. Conseguir um trabalho ali no Recanto Sereno, com Glen e April fora a melhor coisa que j lhe acontecera. E agora a velha senhora estava ameaando estragar tudo.
April observava aquele sentimento estampado no rosto do menino. Ento, resignado, Steven escorregou as mos para dentro dos bolsos, cerrou os dentes e assobiou algo que soava como "bruxa".
Ela odiava estar sendo obrigada a fazer algo que devia parecer uma traio contra o menino de quem estava to orgulhosa naqueles dois ltimos meses.
	Voc sabe que teremos de contar isto a seu conselheiro.
Ele chutou a pedra que mirara antes.
April deu uma olhada para Glen, implorando silenciosamente para que a apoiasse. No incio, ele no queria Steven trabalhando ali. Preocupara-se com o fato de que os benefcios de ajudar um garoto comprometido com a lei podiam ser menores do que os problemas decorrentes desta ajuda.
Talvez Glen estivesse certo quando ops-se a ter o garoto trabalhando com eles. Talvez April devesse ter procurado uma outra sada para seus sentimentos maternos. Mesmo assim, acreditava em Steven. A sra. Turner no o conhecia. No sabia o quanto trabalhava. Depois de alguns episdios ruidosos nas primeiras semanas, sua irritao abrandara e ele parecia querer agrad-los com sua prontido e trabalhando tanto quanto um adulto. April esperava que este episdio com a sra. Turner no provocasse a perda da confiana que haviam ganhado de Steven.
Glen falou to baixinho que April mal conseguiu ouvi-lo.
	E melhor que seu conselheiro oua isto de ns, primeiro.
Embora Steven estivesse evidentemente agitado, no discutiu com Glen.
	As baias precisam de uma limpeza  falou-lhe Glen. 	Por que voc no se livra desta raiva enquanto tentamos resolver esta confuso?
Era uma tarefa que Steven detestava, mas ps-se a correr em direo ao estbulo, sem protestar.
April lanou um olhar agradecido a Glen, por seu papel de orientador de Steven, no apenas naquele dia, mas em todos os outros.
	Espero que ele no desconte a raiva nos cavalos.
	Ele vai ficar bem. Estou mais preocupado que ele desconte sua raiva na sra. Turner.  Glen virou-se para entrar.
	Vamos ficar de olho nele nestes prximos dias e, por precauo, vamos procurar deix-lo longe da propriedade da sra. Turner.
Aquilo acontecera vrios dias antes de April marcar uma consulta com o especialista em fertilidade. Ela tentou dissuadir Glen de acompanh-la, insistindo que podia tomar conta de si mesma, mas ele no lhe deu ouvidos.
Eles enfrentaram o trnsito da cidade antes de encontrarem o prdio ao lado de uma antiga casa que estava sendo reformada. O quarteiro abrigava uma variedade de casas, algumas delas transformadas em escritrios, todas com um gramado impecavelmente aparado.
	No me parece um bairro ruim  April observou.
Glen aproximou-se do meio-fio e deu marcha  r.
	Esta parte foi recuperada, mas dois blocos adiante as casas esto em runas e a rea est cheia de vadios. S na semana passada houve dois tiroteios.
April tremia, apesar do calor do dia primaveril.
	Fico contente de morar em Harmony Grove.  um bom lugar para formar uma famlia.
Glen abriu a porta para ela.
	. Mas  muito ruim sua famlia no ser completa.
	O que quer dizer com isto?
Eles caminhavam ao longo de uma fileira de flores rasteiras cor de prpura na calada da clnica.
	Isto quer dizer: o que voc vai fazer quando a criana perguntar sobre o pai? Vai mostrar uma fotografia do tubo de ensaio?
Ele abrira a porta de vidro e segurava-a para ela, mas April parou e encarou seu melhor e mais velho amigo.
	Pensei que voc tivesse entendido por que estou fazendo isto  disse, magoada por ele ter retirado seu apoio.
	Eu s acho que uma criana deveria crescer com ambos os pais, como eu cresci.
	Bem, para seu governo, Glen Michael Radway, nem todo mundo  to afortunado quanto o senhor. April ps a mo na cintura e tentou olh-lo de cima, o que era bem difcil, considerando-se que ele era uns quinze centmetros mais alto do que ela.  Se voc no pode ficar feliz porque finalmente vou ter o que sempre quis, ento v embora agora mesmo. No quero que voc estrague o que pode ser o melhor acontecimento da minha vida.
Ele j a conhecia o suficiente para saber que no havia chance de discutir quando estava daquele jeito. Tentava h anos convenc-la de sair com ele, em vo. Ela tinha a ideia fixa de que o primeiro casamento no dera certo por ter se casado com um amigo, razo pela qual recusara todos os seus convites. Ainda assim, insistiu.
	S acho que este "acontecimento" deveria ter lugar na privacidade de seu quarto, de preferncia com algum que voc amasse.
De preferncia, com ele. Mas se insinuasse isto, April era capaz de acert-lo com seu livro de bolso. Infelizmente, uma abordagem sutil no estava funcionando. E, quando era mais claro, ela apenas ria, pensando que fosse brincadeira. Sobrava ento, a abordagem sinuosa.
	E fcil falar. Voc sai. Tem namoradas. Voc tem ideia da escassez de homens elegveis em Harmony Grove?
Glen deu um passo diante da porta e segurou o trinco.
	Sua me diz que voc  muito seletiva, e concordo com ela.
	No vamos recomear.
Uma mulher de uns cinquenta anos aproximou-se com um brao carregado de pastas. O crach sobre o vestido florido trazia seu nome: Tia Sofia, Gerente.
	Ora, ora, ora! Isto  jeito de comear com o que pode ser o momento mais feliz da sua vida?
Glen recebeu o sorriso amarelo que April lanou em sua direo.
A mulher voltou-se para April.
	Qual  o seu nome, querida?
	Hanson. April Hanson.
	Sim, claro! Est bem na hora. Por que no entra e preenche o formulrio de seu histrico mdico?
Enquanto a seguiam at a mesa, April levantou o queixo e fez uma manobra para que a gerente ficasse entre os dois. Mas a pacata senhora no se deu conta da tenso eles e ps-se a produzir um monlogo sobre os vrios problemas de fertilidade que j vira e os ndices de gravidezes bem-sucedidas na clnica.
	Se no conseguir da primeira vez  disse a mulher, bem-humorada , bem, vamos tentar at que consiga.
Na mesa, ela pegou uma prancheta e entregou-a a April.
	Adoro este trabalho. No tenho filhos  confessou. --- Mas sinto-me a tia das centenas de bebs que nasceram, desde que comecei a trabalhar aqui.
Aquilo explicava o nome no crach, April pensou.
	Na verdade, dois deles levaram o meu nome.
A isso, Glen acrescentou secamente:
	Meninas, espero.
Tia Sofia deu uma risadinha.
	Voc  brincalho!  Ento, se dirigindo a April, disse: --- Bonito e engraado. Voc  uma menina de sorte.
April apenas sorriu como resposta e levou o formulrio para a sala de espera. Embora houvesse um par de sofs, escolheu sentar em uma cadeira no canto, longe dos outros. Talvez Glen devesse ter deixado que ela viesse sozinha. Estando ali, tudo o que conseguia  que os dois parecessem tristes. Ele sentou-se do outro lado da sala.
	Sr. Hanson  chamou tia Sofia. Glen ficou surpreso.
Correu os olhos pela sala para ver se havia outro homem, mas eram apenas trs mulheres.
Quando aproximou-se da mesa, corrigiu o erro. No fazia sentido deixar as coisas piores.
	No sou sr. Hanson  disse ele.  Meu nome  Radway.
A mulher puxou os culos para a ponta do nariz.
	Entendo  disse ela, embora ficasse claro que no. Ela estendeu-lhe uma prancheta e  viva voz, o que lhe era caracterstico, continuou:  Preciso que voc preencha isto e em seguida o chamaremos para que o doutor mea o tamanho do seu, hum, voc sabe... das jias de famlia.
Neste momento, April esquecera aparentemente a tenso de alguns minutos atrs. Ao contrrio, parecia divertir-se, achando graa no embarao dele.
	Em seguida  Tia Sofia continu JU em voz alta, apontando para o saguo , voc pode levar sua xcara para aquele quarto onde ver um filme sem roteiro. E ento, muito em breve, o senhor e a senhorita Hanson estaro prestes a formar uma famlia.
Ele podia jurar que ouvira uma risadinha vindo de onde estava April.
	Receio que a senhora esteja enganada. No sou o doador.
	No tome isto como algo pessoal  disse ela, tentando sussurrar. Infelizmente, sua voz potente parecia estar com o volume sempre no mximo.  Muitos homens tm espermas dorminhocos.
Neste instante, ele encarou April, o que pareceu t-la feito tomar uma atitude mais sria pois ela levantou-se e veio ao seu encontro. Passou o brao pelo dele e assoprou em seu ouvido.
	Tudo bem, meu doce de coco  disse April, com a voz cheia de simpatia.  Amo voc do jeito que .
	Mas eu...
Glen passeava os olhos de uma mulher para a outra, percebendo que no chegaria a lugar algum. J era bastante ruim ela ter vindo contra a vontade dele. Pior ainda era a determinao de ter um beb de outro homem, quando tudo o que tinha a fazer era parar e olhar a seu redor. Mas agora, para piorar as coisas, a fertilidade dele, de repente, tornara-se assunto para quem estivesse por perto.
	Tudo bem, querida  disse, pegando a mo de April.
As mulheres na sala de espera assistiam atentamente  novela que se desenrolava diante delas.
Estava claro para April que sua provocao estava prestes a voltar-se contra ela. Olhava-o ressabiada, enquanto ele se voltava devagar, fazendo soar a voz para a plateia da sala de espera.
	Tenho levado as coisas muito para o lado pessoal. No importa quem seja o pai gentico,..
Fez uma pausa dramtica.
	Desde que nos amemos.
April encarou-o, como se ele tivesse perdido a cabea. Tentou empurr-lo, mas Glen segurava sua mo com firmeza.
	Est sendo difcil para mim... para ns dois.
Ergueu a mo para enxugar uma lgrima fictcia no canto do olho, em seguida, segurou a mo dela contra sua face. Quando beijou-lhe os dedos, April sentiu as pernas enfraquecerem.
	Mas voc tem sido mais forte nisto tudo. Eu amo voc, April.  A voz dele desafinou um pouco.  Sempre amei e sempre amarei.
Ela ouviu um suspiro tmido vindo da silenciosa sala de espera. Os lbios j se abriam devagar para responder algo, mas no sabiam exatamente o qu.
Antes que pudesse reagir ou mesmo pensar em algo espirituoso, Glen aproveitou-se de seu silncio. Curvou-se e tocou-lhe os lbios com a boca. Assim que o beijo comeou, os pensamentos fugiram-lhe. Tudo o que conseguia fazer era saborear aquela proximidade excitante.
As mos dele escorregavam quentes por seu peito, o polegar tocava as formas arredondadas dos seios. Ela ficou tensa quando a ponta dos dedos procuraram suas costas, onde desceram at a curva dos quadris. Tremia entre seus braos e sabia que sua reao nada tinha a ver com o frio do ar-condicionado.
Enquanto sua boca cedia ao beijo, sentiu-o rijo contra si. Apesar da resistncia inicial, reagiu ao beijo levantando o queixo e oferendo os lbios, a nuca...
Glen baixou os olhos, e April percebeu-lhe o calor no olhar. Com loucura, queria que a trilha de beijos seguissem o caminho que ele fazia com os olhos.
Ela j a beijara antes, uma vez na caixa de areia no maternal, depois que ficara com uma farpa de madeira na mo. Outra vez, foi durante um jogo da verdade em uma festa de aniversrio. E, ainda uma vez, antes que cada um tivesse experimentado o primeiro beijo na boca. Tinham tanto medo de cometer um erro embaraoso com um namorado, que treinavam juntos antes da hora.
A reao dela queles beijos de treino eram prazerosas, de um jeito adolescente, mas nada se comparava ao que sentia agora.
Glen soltou as mos de sua cintura. Sentiu uma ponta de arrependimento. O beijo comeara como uma brincadeira para ficar quite com o respeitvel pblico ali presente. Mas agora, o foco da piada era ele.
Por mais que odiasse aquilo, tinha que acabar o beijo, antes de arrast-la para aquela sala com o filme sem histria. April queria que Buddy terminasse o que comeara. Queria mais que aquele beijo. No entanto, ele afastou-se, gentilmente, proporcionando-lhe a viso dos olhos castanhos mais profundos que havia em Harmony Grove. Seus olhos estavam semicerrados de modo que ela mal conseguia ler a emoo sob os clios negros. Beijou-a de novo, dois estalos rpidos, e afastou-se antes que se desse conta da grandiosidade do que acabara de acontecer entre os dois.
Os joelhos de April quase bambearam quando ele a soltou. Colocando uma mo sobre a mesa da recepo para man-ter-se de p, encarou o homem que havia virado seu corao de cabea para baixo, depois de uma observao engraada.
Tia Sofia deu um pigarro.
 Hum, se vocs dois j terminaram, srta. Hanson, o doutor est  espera.

CAPITULO III

April ainda pensava em Buddy e no seu com-Lportamento inesperado, enquanto discutia, na casa de sua me, a reunio da famlia que, em breve, aconteceria, no acampamento.
	Voc tem certeza de que o acampamento estar reservado s para ns?  perguntou Joan Hanson  filha.  J  bastante ruim para os mais velhos dormirem naquelas camas duras, naquelas cabines sem ar-condicionado, devo dizer, mesmo sem a agitao,  meia-noite, dos grupos de jovem que voc e Glen sempre recebem.
April respirou fundo. "Conte at dez", disse a si mesma. Antes de contar at cinco, sua me lanou um comentrio a respeito de um dos parentes que viriam.
	Se sua prima Ardath estiver mais gorda do que no ano passado, voc tem que reforar aqueles bancos de piquenique. Eu juro, ela deve morrer de vergonha em casa mentos e enterros, com aquelas meias-calas, roando e fazendo aquele barulho horrvel.  Ela estendeu o lpis a April por sobre a mesa da cozinha.  Anote a para Adarth jogar vlei. Deus sabe como esta menina precisa de exerccio.
Embora sua me, s vezes, parecesse um rolo compressor, April sabia que no fazia por mal. As atitudes de Joan eram, a seu modo, uma demonstrao de amor e preocupao para com os parentes.
Ainda assim, April recusava-se a participar dos planos bem-intencionados da me.
	Mame, no vou fazer ningum...
	E esconda a cerveja de seu tio Jos. O mdico disse para ele ficar longe de bebidas. Alm disto, no queremos que faa um espetculo pblico, como fez o ano passado. Os vizinhos falam at hoje do incidente.  Joan bateu no colo, convidando o gato siams que roava a perna da cadeira, para em seguida afastar-se. No lugar dele, Maybelline respondeu ao convite, deitando o focinho molhado sobre o joelho da anci. Joan enxugou o joelho e continuou com seus pensamentos.  Com certeza, no quero dar s fofoqueiras nenhum pretexto de zombar de seu pobre tio.
April pegou o lpis e rabiscou uma nota sob a lista de compras. Sua me inclinou-se para frente e leu, de cabea para baixo.
	Para que a fita adesiva?
	Para manter algo fechado  respondeu April, inocente.
Estudou a boca da me e achou que precisaria de um rolo com metros a mais.
	E por falar em cerveja e humilhao pblica,  verdade que voc e Glen foram presos por vender cerveja sem licena?
 Joan correu uma das mos pelo cabelo cinzento e deu um suspiro.  J foi muito ruim o que aconteceu com a reputao de sua irm no colgio. No quero ver voc arruinar a sua, tambm.
April apertou os dedos contra as sobrancelhas e tentou desfazer a tenso, como vira Buddy fazer tantas vezes.
	Voc falou com Nicole?
	No. Ela tambm est envolvida? Li no jornal.  Levantou-se e apanhou o jornal do sof. Depois de abri-lo, estampou-o diante de April e apontou para a fotografia que acompanhava a pequena notcia.  Este aqui, o que  parecido com Elmer Fudd, disse que prendeu vocs por desobedecerem  lei de venda de bebidas alcolicas.
	Foi um mal-entendido.
Os olhos de Joan ficaram midos, e April teve a forte sensao de que sua me estava querendo comear sua manipulao.
	Sempre tive orgulho de voc por nunca ter me causado desgosto. Estava mesmo para dar-lhe algo especial... Voc sabe, uma relquia de famlia, que revelasse o quanto voc  importante para mim.
April tinha razo. Manipulao em tom maior.
	Mas acho que poderia d-lo a Nicole, ento. Afinal, a colcha de vov Hanson deve permanecer na famlia e eu no culpo Nicole pelas circunstncias de seu nascimento.
	Voc est falando da colcha da famlia Hanson, que tem uma histria em cada retalho?
Joan acenou afirmativamente.
Comeara como o roupo de sua bisav. Como desdobramento de acontecimentos na vida dos parentes, retalhos eram costurados a ele, at que ficara grande o bastante para cobrir uma cama de solteiro.
Uma cama de criana. De seu filho.
Quando menina, April adorava apontar para os quadrados coloridos, ouvindo sua av contar por que cada pedacinho de tecido fora costurado  colcha. Se parasse para pensar, provavelmente lembraria todos os quadrados e a histria de cada um. Havia um retalho de crepe branco, do vestido de casamento de sua bisav, um retalho azul do uniforme de escoteiro de seu pai, o ursinho cor-de-rosa da camiseta de jardim-de-infncia de Esteia, e ainda um pedao de tela da barraca que desmoronara durante uma das viagens da famlia, antes do divrcio. Esteia, certa vez, chamara-a de sentimental, por ser to apegada  colcha, mas April jamais soubera explicar por que aquela era mais do que uma simples manta para ela.
April levantou e jogou o caf frio na pia. No fundo, sabia que sua me jamais desafiaria os ltimos desejos da vov Hanson. Mas para chegar a mencionar aquilo, era claramente porque dava muita importncia ao fato de April manter o bom nome. As fofocas que seguiram-se  indiscrio de Esteia haviam magoado Joan profundamente, e April no queria deix-la na mesma situao de desapontamento.
	No me decepcione.  A suavidade e a sinceridade do apelo de Joan enfraqueceram April, mais do que o melhor momento de sua manipulao.
Consciente de estar cruzando os braos sobre o abdmen, April inclinou-se sobre a pia.
	Ento se eu fosse, digamos, a uma clnica de inseminao e engravidasse de um estranho, voc me deserdaria?
	Jamais deserdaria voc!  Joan levantou-se e empurrou a cadeira para baixo da mesa.  Mas no gosto que brinque com uma coisa destas. Algum pode ouvi-la e pensar que  verdade.
Jamais convenceria a me de,que ter uma criana assim era uma opo aceita pela sociedade. Mas nada faria com que April desistisse de ter um beb.
Planejando com cuidado, poderia ter o beb que tanto desejava e ainda poupar a me da decepo de outro neto nascido fora do casamento.
Sufocando um sorriso de vitria, April recuperou o lpis e a lista deixados sobre a mesa. Teria muito trabalho, mas valeria a pena.
O difcil seria persuadir Buddy a comprar a parte dela no acampamento.
Nos preparativos para o encontro da famlia de April, Glen limpava a piscina enquanto Clyde retirava o mato que crescia nas fendas do concreto. Glen estava preocupado com April. Sempre cuidara dela. Mas, desta vez, no sabia o que fazer para ajud-la.
Seu relgio biolgico seguia apressadamente, deixando-a maluca. Adotava qualquer pessoa ou animal que precisasse dela. Havia os gatos, cachorros e at um filhote de passarinho que cara do ninho. Agora, Steven, Clyde, o esquilo beb e o bando de crianas para quem organizava as brincadeiras. E se ele pegasse um resfriado? April desdobrava-se em atenes maternais sempre que algum caa doente.
Ela queria uma famlia. E ele, mais do que tudo, queria fazer parte dela. Glen mergulhou a peneira na gua e recuperou um besouro preto e gordo.
Quando ela se casara com Eddie Brock, seu pretenso melhor amigo, fora com se um pedao imenso de Glen tivesse morrido.
Por alguma razo, pensou que ela estaria ali quando terminasse a faculdade. Esperara que aquele tempo separados iria afet-la, como o afetou, e que ela perceberia que a longa convivncia de ambos poderia e deveria ir alm de mera amizade. Quando adolescente, tmido e inexperiente, no quis arriscar a rejeio ao sugerir uma ligao romntica. Desde ento, arrependera-se de sua hesitao.
Mantiveram contato enquanto ela estava casada, mas as cartas e os telefonemas eram polidos e platnicos. Depois do divrcio, houve rumores de que ele fora a razo do rompimento dela com Eddie. Glen no se importava com o que diziam dele, mas na certa no queria falatrios sobre April. Ento, quando se mudou para Harmony Grove como scio dela, comeou a arranjar uma namorada atrs da outra, s para desmentir as fofoqueiras da cidade. O que elas no sabiam, por mais bonitas e sedutoras que fossem as namoradas, era que preferia estar com April.
Alguns dos amigos de Glen invejavam sua vasta coleo de namoradas. O que ignoravam era que ele  que invejava o relacionamento duradouro que tinham com uma mulher especial, que amavam.
Virou-se para pendurar a peneira na cerca, enquanto algo chamou a ateno de Clyde para alm das azalias. O velho mirou o parquinho vazio e o caminho que levava s barracas. Uma mulher de cabelos curtos e loiros, corria na direo deles, agitando os braos e gritando.
	E a April?  perguntou Clyde.
Glen notara os seios que danavam sob a camiseta da mulher, a cada passo que dava, e lembrou-se da imagem de sua pequena scia em um busti de tric.
	No, April  menor.  Depois de ter dito aquelas palavras, esperou que Clyde deduzisse que falava de sua altura.
	Acho que  a moa do lote R-17  disse Clyde. Ela e o marido tm uma Blazer azul.
Glen lembrava agora.
	 a me da menina por quem April encantou-se.
	 essa.
Glen atravessou o porto e correu pela grama para ver qual era o problema. Ouviu as rodas da cadeira de Clyde vindo atrs dele.
Embora a mulher aparentasse apenas trinta anos, o exercicio fsico fazia-a arfar, como se fosse mais velha Ou estivesse fora de forma. Glen sentiu um frio correr-lhe a espinha ao considerar uma outra alternativa: medo.
Ao aproximar-se dela, no havia coerncia no que dizia, sua voz traduzia pnico. Glen agarrou-lhe os braos e fez com que o olhasse nos olhos. Enrgico, porm calmo, falou:
	Tem que me dizer o que h de errado se quer que a ajude.
Clyde foi at eles.
	Picada de abelha?
Enxugando as lgrimas com o leno que Glen lhe dera, balbuciou ainda algumas palavras, entre as quais Glen entendeu "minha filhinha" e "perdida".
Clyde fez uma meia volta rpida.
	Vou buscar ajuda.
Ao afastar-se com a me da menina perdida, pensava em como Ciyde haveria de colocar a situao para April. Esperava que fosse cauteloso.
April e Maybelline chegaram  barraca logo depois deles. O pai empurrou um galho e emergiu por de trs de sua tenda. O olhar que lanou para a mulher era tudo o que Glen precisava para saber que a criana ainda estava perdida.
O sr. Kolhman fora mais eficiente do que a esposa para contar o que acontecera. Enquanto ele falava, Glen notou que April, instintivamente, colocou o brao por sobre os ombros da mulher mais jovem. Apertava os lbios com fora ao ouvir o pai explicar como Kimberley, dois anos, vira um coelho e seguira-o dentro da mata. Ela, provavelmente, sumira no lapso de tempo em que ele acendia o fogo para as salsichas, e a sra. Kolhman entrara para pegar as batatas fritas. Glen estava solidrio com o casal desolado, mas sentia-se ainda mais impelido a consolar April.
Em vez disso, comeou a dar ordens. Na sua desolao, os Kohlman pareciam aliviados por algum tomar o leme da situao. Glen entregou o rdio  sra. Kohlman.
 Voc fica aqui  disse ele.  Sr. Kohlman, v para a esquerda. Eu vou pelo centro e April, para a direita. Voltamos para c em vinte minutos.
April abaixou-se e pegou um pedao de tecido sobre o banco.
	E da Kimberley?  perguntou  sra. Kohlman.
A mulher balanou a cabea, apertando o rdio contra o peito.
	 da manta de Kimmy.
quela afirmativa, April estendeu o tecido diante do nariz de Maybelline. Glen balanou a cabea negativamente ao considerar a ideia daquele cachorro estabanado seguir algum pelo cheiro. O cachorro podia ser um bom caador, mas no fazia jus ao nome da raa.
No havia tempo a perder.
	Esquea isto April. Este cachorro mal sabe ir atrs de um jornal.
Ela mostrou-se ofendida, e ele logo arrependeu-se de suas palavras. April j deveria saber que o co no era l muito esperto.
No entanto, April parecia determinada a fazer seu plano funcionar.
	V beijar o beb  disse ao cachorro.
Glen ergueu os ombros e avanou pela mata. A nica coisa que April conseguira ensinar ao cachorro, fora que lambesse os joelhinhos das crianas, em vez de pular sobre elas. Glen supunha que a nica razo de o co aceitar a mudana de comportamento, eram as risadas deliciosas provocadas pelos "beijos". Ao pensar que a recompensa das risadas gostosas de uma criana inspirariam Maybelline, April tinha pontos a seu favor. Mas Glen no tinha muitas esperanas de que o co fosse ajudar.
Embora no houvesse perigo de exposio ao sol, Glen temia que a menina pudesse tropear em um ninho de gavies. Ou se suas perninhas fossem bem longe, o riacho era uma ameaa. O sol forte tornou-se plido, como se algum tivesse virado um interruptor. O cu Ficou escuro, anunciando uma chuva de vero. Subiu em uma rvore, chamando pela menina e seguiu abrindo caminho em meio  folhagem. Era preciso andar depressa se quisessem encontrar a pequena antes da tempestade.
Ao voltar para a barraca, ficou desapontado por ningum ter tido a sorte de encontrar Kimberley. Mas sua contrariedade ainda era bem menor do que a de April, que agora, alm de enfrentar o fato de no terem encontrado a menina, falava com seu inimigo pessoal, Alexander Dugg.
Glen deu uns passos  frente, preparado para intervir, se necessrio. Um comit formado por Steven e uma dzia de estranhos, pessoas que souberam da notcia, juntavam-se ao redor da dupla, ouvindo a discusso sobre o melhor plano para encontrar a garota.
	Boa tarde, policial Dugg.
April observou o policial erguer os olhos para o homem alto diante dele, estendendo-lhe a mo direita. Dugg olhou fixamente a imensa palma e os dedos fortes, sem saber se o "amigo" ainda estava bravo com ele. Se apertasse aquela mo gigante, talvez no conseguisse mais atirar. Ento as chances de tornar-se xerife, seriam nulas.
O policial teve que correr o risco, mas logo sentiu-se aliviado ao ver que fora apenas um aperto bem dado. Flexionou os dedos, espiando Glen para ver se estava rindo. Mas no havia sequer uma sombra de sorriso em seu rosto. Glen estava mais preocupado com a criana perdida.
	Buddy, que bom que voc est aqui  April disse ao scio.  Dugg est pedindo a estas pessoas que voltem para casa, mas precisamos delas para ajudarem a procurar.
	timo  disse Dugg.  Voc est tentando diminuir minha autoridade diante destes cidados. Isto  um caso de polcia, srta. Hanson. Cidados civis no tm nada que interferir em questes criminais.
	Criminais?  April ergueu os braos.  Buddy, voc vai coloc-lo para fora ou vou eu?
	E possvel que seja um sequestro. Tenho de interrogar o sr. Kohlman.  Procurou o bloco de notas no bolso da camisa, mas foi detido por um punho forte fechando-se sobre o seu.  Ei!
O olhar enrgico de Glen impediu qualquer discusso.
	O tempo est passando, e uma menininha assustada espera por ns. Sugiro que voc faa um mutiro junto com as outras pessoas e empenhe-se em achar a criana.
April sentiu-se aliviada quando o policial fez o que lhe foi pedido, pondo-se ao lado de Steven. Mas o alvio no durou muito.
	Ouvi falar da sua preferncia por bonecas nuas  disse ao garoto.  Pode ser que voc tenha algo a ver com o desaparecimento da menina.
O soco no estmago pareceu ter vindo do nada. Em um segundo, ele e o adolescente rolavam por terra. Embora Dugg levasse vantagem pelo peso, o ataque surpresa e a raiva de Steven prevaleceram. O envergonhado oficial da lei viu-se arrebatado pelo pequeno guerreiro.
April aplicou-lhe um tapa sobre a tmpora. Ela se recomps depressa e retirou algumas folhas do cabelo dele.
	Grama  estendeu-lhe as folhas, como explicao.
	No espere que eu agradea  disse, ainda esfregando a cabea.
	Se disser mais uma palavra a Steven  ela avisou , eu eu...  Olhou para Glen, pedindo ajuda.
	Vamos contar  Receita que voc sonegou os impostos  o scio sugeriu.
O policial empertigou-se.
	No faria isto!
	Vamos  disse Glen, empurrando ambos em direo  floresta, por onde os voluntrios j- sumiam.  Temos trabalho a fazer.
Por duas vezes, April pensou terem encontrado a criana, mas da primeira, era apenas um monte de folhas secas, e da outra, o roar por trs da rvores era uma dupla de esquilos brincando. A cada alarme falso, o policial adiantara-se para reivindicar a exclusividade do resgate.
April erguia os olhos, imaginando o que ele podia estar pensando. "Candidato a Xerife Salva Menina da Morte Certa". Mas ela duvidava de que mesmo uma manchete daquelas ajudaria sua campanha. Maybelline parecia concordar. Toda vez que o policial aproximava-se de April, o cachorro arreganhava os dentes e rosnava.
Procuraram por mais de uma hora. O vento j fazia redemoinhos em torno deles, algumas gotas grossas caam aqui e ali, enquanto, no horizonte, um relmpago servia de aviso.
April esfregou os braos nus e ergueu a gola da blusa. J estavam perto d riacho que fazia fronteira com os fundos do acampamento, e nada da menina. April j estava rouca de tanto chamar por Kim e as pernas e braos estavam cobertos de arranhes, mas no desistiria. Cara de amores pela pequena, desde o primeiro momento em que a vira. Odiava a ideia daquela doce criatura estar sozinha, com medo e chorando pela me.
Maybelline desinteressara-se logo depois de terem comeado a busca, preferindo ir atrs de coelhos e descobrir seus esconderijos.
Um grito veio da floresta,  esquerda de April. Era Glen, e ele parecia excitado. April, apesar do cansao, apressou-se em juntar-se aos outros, que j corriam na direo de Glen.
Um crculo de voluntrios formou-se ao redor da frgil forma enrodilhada sobre a superfcie em que adormecera, prxima a uma touceira de flores do campo. Glen ajoelhou-se a seu lado, a voz serena para no assust-la.
	Oi, fofinha. Tirou uma boa soneca?
Ela balanou a cabea afirmativamente, obviamente sem dar conta da comoo que causava, e esfregou os olhos com o punho gorducho.
	Eu vi o coelhinho da Pscoa.
	Bem, vamos voltar para sua barraca para voc contar ao papai e  mame sobre isto.
Apesar da chuva que comeava a engrossar, Glen continuou ajoelhado e estendeu-lhe a mo.
O corao de April encheu-se de prazer. No continha o orgulho de ver o amigo ganhando a confiana da criana.
A pequena j alcanava a mo dele, quando o policial Dugg apareceu em meio ao grupo de observadores e pegou-a nos braos.
	 melhor tirar a garota daqui, antes que um raio nos acerte.
Kim ps a boca no mundo com uma ressonncia que faria inveja a qualquer cantor de pera.
Glen foi na direo de Dugg, hesitante. April no queria que a criana fosse o pretexto da discrdia. Ela postou-se ao lado de Glen, disparando um olhar de desaprovao para o policial, por ter assustado a menina. Mas a pequena inclinava-se para o lado dela, estendendo-lhe os braos e berrando mais forte.
Dugg parecia mais atrapalhado do que April, diante da reao da criana. Em vez de discutir com a garota, entregou-a a April, sem uma palavra.
A chuva colava os cabelos da menina  sua face redonda, e os topos das rvores danavam  brisa. Mas April ia sem notar estas coisas, enquanto os braos fofinhos de Kimmy envolviam seu pescoo e a criana aninhava-se contra ela.
	Est tudo bem, doura. No vou deixar que nada acontea a voc. .April apoiou 0 queixo sobre o pequeno ombro e entendeu claramente a necessidade, j concreta dentro de si, de ter um beb. Todos os cuidados de proteo vinham  tona, e segurava a criana com fora, como se temesse perd-la novamente.
Glen embrulhou Kimmy com sua camisa e voltou com April para a barraca. O sr. Kolhman veio ao encontro deles, tendo ouvido os gritos de onde estava. Kimmy foi ansiosa ao encontro do pai, deixando um vazio no peito de April.
Solidrio, Glen passou um brao por seus ombros. Agradecida, April deixou-se amparar pelo amigo, sempre presente. A chuva deixava gotas entre os fios dos cabelos crespos e castanhos de Glen e molhava sua pele bronzeada.
April o olhava enquanto andavam, um sorriso entreabrindo-lhe os lbios.
	Est com frio, ou apenas contente em me ver?
Glen sorriu para ela e apertou-lhe o ombro.
	Um pouco das duas coisas  declarou ele.  Foi muito doce o modo como Kimmy ficou com voc.
Puxando os fios de cabelos encharcados da testa, ela balanou a cabea.
	Acho que a fiz lembrar a me. Sou parecida com ela, no?
	No muito.  Sorriu.
April no se deu ao trabalho de perguntar o porqu do sorriso. Em seguida, sem prembulos, iniciou o assunto que estava querendo falar-lhe desde a conversa com sua me.
Vou sair da cidade, e quero que voc compre minha parte do acampamento.
	Olha, sei que est chateada com a histria da menina perdida, mas  a primeira vez, em seis anos, desde que compramos o lugar. No acha que est exagerando?
	No tem nada a ver com Kimmy. Talvez at tenha. Ela me fez ver o quanto quero um beb.  April parou e encarou o scio, esquecida da chuva que encharcava a ambos.  J carreguei os filhos de outras pessoas antes, mas foi diferente. Voc viu o jeito como que ela estendeu-me os bracinhos? E o jeito que se aninhou em mim e confiou-se aos meus cuidados?
April passou os braos por volta de sua prpria cintura, saboreando aquela doce lembrana.
	Segurando e consolando aquela menininha, pude ver claramente o que tenho perdido sem um filho meu, de verdade. Buddy, preciso fazer algo, agora.
Glen virou-se e comeou a andar em direo  barraca dos Kohlman, hesitante, enquanto ela postava-se a seu lado.
	E o acampamento? Era um filho seu. Foi voc quem o encontrou, quem negociou e sugeriu que eu deixasse meu negcio na Pensylvania para tornar-me seu scio. O que devo fazer enquanto voc se ausenta para engravidar? E o mais importante: como vai fazer isto sem que sua famlia fique sabendo? Com certeza, sua me tem o que dizer sobre isto.
Glen massageou o cenho.
 Vou sentir saudade do acampamento mas, no momento, um filho  o mais importante para mim  disse April, com doura.  Mas sei que qualquer que seja o preo que me pague pela parte no negcio, ser justo, e estou disposta a receber o pagamento em prestaes mensais. No precisa ser muito... o suficiente para eu pagar um aluguel e o tratamento de inseminao.
Ele contraiu o maxilar em sinal de desaprovao, mas April no se deixou abalar pela reao dele. Sua deciso estava tomada, nada a faria mudar. Nem mesmo a desaprovao de Glen.
 Quanto  minha me  ela continuou , vou mudar de cidade, talvez de estado, e farei com que pense que estou envolvida com algum que conheci por l. Depois de conseguir a inseminao, anuncio a gravidez, em seguida vem o "divrcio" eu volto para casa.
	J pensou em contar  sua me sobre o que voc quer? Ela pode surpreend-la e dar seu apoio.
	J foi ruim o bastante Esteia ter engravidado sem
querer.  Ela deu um suspiro.  Minha me morreria ao saber que a filha solteira ficara grvida querendo.
A chuva estava abundante agora, mas o sol surpreendeu-os despontando por trs de uma nuvem. Nenhum dos dois apressou o passo. No era a primeira vez que tomavam um banho de chuva.
Glen parou e tomou as mos dela entre as suas.
	No quero que v embora  confessou.  Preciso de voc aqui.
April apertou suas mos cheias de calos.
	Tenho certeza de que voc vai encontrar algum para ficar no meu lugar.
Ele fechou os olhos.
	Nunca.
O som dos pingos da chuva sobre as folhas cessou de repente, enchendo a mata de silncio, antes de os pssaros e grilos comearem a sua toada.
	Ah, que  isto? Agora  voc quem est exagerando.
Ele voltou a face para encar-la, as mos ainda enlaadas.
	O que  preciso para que voc fique aqui?
	No h mais o que discutir sobre isto, por que minha cabea j...
	J sei!  exclamou ele.  Tenho a soluo para ambas as necessidades.
	Tem?
	Eu darei um filho a voc.

CAPITULO IV

Olhe, se este  um pedido comum de suas namoradas, ento no  muito engraado. Estou falando srio e preciso saber se voc est interessado em me ajudar. Se no,  s dizer, e eu acho um outro jeito de fazer as coisas.
	Eu estou interessado em ajudar voc... os amigos servem para isto. E estou sendo muito srio quanto  minha oferta.
Ela tinha suas dvidas. Amigos ajudam-se um ao outro, mas aquilo parecia excessivo, mesmo para amigos ntimos como eles.
	Voc est com problemas para arranjar uma namorada este fim de semana?  ela provocou.
Glen comeou a andar em direo ao escritrio, balanando as mos, ainda entrelaadas.
	Voc aceitaria minha oferta se pensasse que tenho um outro motivo?
Ela ergueu os olhos para ele e, subitamente, deu-se conta de seu peito desnudo. J o vira sem camisa antes, mas sempre o olhara como quem olha um irmo. Embora a convidasse para sair regularmente, nunca o levara a srio. Talvez ela pensasse que fosse brincadeira.
	Voc quer um beb. Eu quero que voc fique aqui e continue minha scia no acampamento. Assim ns dois seremos felizes.
	Voc sempre me disse que no  bom misturar negcios e prazer.
Estaremos misturando negcio com negcio. O seu  comear uma famlia, o meu  manter o acampamento funcionando bem.
	Eu coo suas costas e voc coa as minhas? 
Ele sorriu e apertou a mo dela.
	Entre outras coisas.
April ficou esttica. Paciente como sempre, Glen parou para esper-la. O problema  que agora ela o encarava e o peito nu estava exatamente diante dos olhos dela. Tentou ignorar a largura dos seus ombros e as formas rijas de seu abdmen. E mais, tentava no pensar na intimidade que experimentariam para fazer o beb que ela queria.
	Voc no est falando realmente srio sobre isto.
Ele levantou o queixo dela com um dedo at que seus olhos se encontrassem. Era uma situao delicada.
	To srio quanto voc em querer seu beb.
	Isto  muito srio.
No havia sinal de engano em seus olhos, nada de tentar conter um sorriso.
April no podia querer um doador melhor. Glen estava em tima forma. Esbelto, embora musculoso. No conseguia lembrar a ltima vez que ficara doente.
Era inteligente, tambm. Em poucos anos, ajudara a tornar o acampamento falido em um negcio prspero.
Com aquele olhar expressivo, o maxilar bem delineado, assim como todos os traos do rosto, no havia dvida de que geraria um lindo rebento.
Era loucura! Pensava nele como se fosse um garanho.
	A razo que me faz ir embora para ter um beb,  evitar o estigma que paira sobre Esteia e Nicole. Quero criar meu filho em Harmony Grove e a nica maneira de fazer isto em paz  seguir a tradio e casar.
	Est bem  disse Glen calmamente.  Ento caso-me com voc. Se achar que no deve continuar casada depois de conceber, podemos fazer um divrcio amigvel.
April deu umas palmadas no brao do amigo..
	J destru uma amizade casando-me com um amigo, e no creio que v cometer o mesmo erro duas vezes. Quanto ao divrcio, no quero passar por isto nunca mais, sobretudo com um beb. Impulsivamente, ficou nas pontas dos ps e beijou a face do amigo.  Foi muito gentil de sua parte fazer uma oferta to generosa. Voc  um bom amigo, Buddy. Era um apelido ntimo. Por um momento, comeara a pensar seriamente na sugesto dele. Achou que seria melhor para a amizade deles, se colocasse um ponto final na conversa.
	Ento, est feito. Voc compra minha parte no acam
pamento, deixo a cidade para engravidar e, se tudo correr bem, posso voltar a trabalhar com voc dentro de um ano ou dois.
	Vou dizer uma coisa, no precisamos nos casar no papel.  insistia Glen. Ela no tinha certeza, mas parecia que uma luz acendera-se dentro de sua cabea. Antes que tivesse tempo para refletir, ele exps sua ideia:  Se voc est preocupada com sua famlia e as fofoqueiras da cidade, poderamos fazer um casamento de mentira com um falso padre. Assim, quando voc engravidar, podemos nos separar sem o trauma de um divrcio.
A voz dele soava calma demais, casual demais diante do que estava sugerindo. Embora observasse sua reao, no olhava-a dentro dos olhos. April achava que tentava disfarar o quanto o acampamento era importante para ele. Na sua preocupao de planejar um filho, deixara de considerar o impacto negativo de sua sada do negcio. No seria justo abandonar Glen e o acampamento que comeava a trazer bons lucros. Por outro lado...
	No seria justo "usar" um amigo assim  disse ela, descartando a ideia tentadora.
Ele deu um sorriso amarelo.
	J fui usado de maneiras piores.  Dando-lhe as costas, pegou uma pedra do cho e arremessou-a na mata. 
 Sugiro que voc se decida depressa. O encontro em famlia na prxima semana seria uma tima ocasio para um casamento.
Quanto mais April pensava sobre o assunto, mais convencia-se de que aquele plano maluco podia dar certo. Nos ltimos dias, desde a oferta generosa de Glen, pouco pde pensar em outras coisas. Por fim, chegou  concluso de
que, uma vez pronta a se submeter a uma inseminao artificial, seria melhor que o doador fosse de origem conhecida. Ao mesmo tempo, o pretenso casamento com Glen seria aceitvel diante de sua famlia antiquada e dos vizinhos.
April apoiou o cotovelo no balco da loja e virou toda a garrafinha para que o esquilo pudesse beber o resto do leite em p prescrito pelo veterinrio.
Pelo que podia lembrar, Glen sempre estivera por perto. Sempre que precisava de um companheiro nos estudos, estava bem ali. Quando precisou de um scio para comprar e gerenciar o Recanto Sereno, deixou o emprego na Pensil-vnia e voltou para a Virgnia. E agora que ela queria um beb, estava disposto a ajud-la mais uma vez... a oferta mais ntima.
O sino por sobre a porta tocou quando Glen entrou na loja. Gotas de suor brilhavam em suas tmporas e encharcavam os cabelos na nuca. Ele tinha um buque de accias nas mos. Ao lhe entregar o ramalhete, ele afastou uma mecha de cabelo que lhe caa na testa.
	Quando as vi, lembrei-me de seu cabelo.
	De meus olhos, quer dizer?  ela perguntou, referindo-se  ris castanha que normalmente levavam os estranhos a pensarem que ela era irm de Glen.
	Tambm  ele concordou. Sua mo quase lhe tocava o rosto.  Estava falando das ptalas amarelas.
Era estranho ouvi-lo falar daquela maneira. Assim, para quebrar a tenso que crescia, ela tentou uma piada a respeito da observao dele.
	Talvez seja por causa das ptalas curtas e selvagens.
Antes que ele prosseguisse com a conversa, April acomodou o pequeno esquilo em sua caixa de papelo, retirou um picol do congelador e estendeu-o para o homem que, de repente e inexplicavelmente, acelerara seu corao.
Ele agradeceu com um sorriso, um gesto que ela j vira milhares de vezes. Mas naquele dia parecia a primeira vez. Era um homem bonito, de uma beleza discreta. Os traos do rosto eram bem definidos. O corpo de seu amigo era bem-feito, um modelo de beleza de sua gerao, mas eram sua calma interior e sua segurana que davam s caractersticas fsicas seu verdadeiro brilho. Quando seus olhos castanho-claros encaravam-na como agora, April sentia-se sem foras para quebrar aquela magia.
O telefone tocou, fazendo-a voltar a si. Grata pela interrupo, adiantou-se para atend-lo.
Era Joan.
	April, estou no supermercado, e tem uma promoo de hambrgueres congelados. Acho que vou comprar um pouco para a reunio, mas se voc j os tiver, vou comprar outra coisa.
	Agora no  uma boa hora.  April no queria falar com a me naquele momento. No, enquanto estivesse tomada pela ideia de enganar a famlia com um casamento falso.  Sabe, estou no meio de um...
	 a melhor hora. Estou aqui mesmo, e a promoo acaba hoje.  s dizer se voc quer que eu compre ou no.
Glen encostou-se no balco.
	Mande um abrao para sua me.
	 o Glen?  perguntou Joan.
	Sim, mame. Ele mandou um abrao.
	Seu primo Earl disse que vocs dois vo se casar.  A me deu um longo suspiro.  No sei por que no me contou nada sobre isto. No  que eu desaprove o Glen. S no queria saber por terceiros do casamento de minha prpria filha.
April ficou boquiaberta. O primo Earl? Como soube? Quais seriam os outros detalhes que ele sabia sobre o acordo?
	Mame, no temos certeza de nada. S falamos sobre isto.
Joan Hanson no perdeu tempo em fazer planos para o evento.
	Acho que gostaria que tia Frid-a cantasse uma Ave Maria.
Glen saudou mais uma vez a me de April com o sorvete na mo e saiu para acabar a limpeza dos caminhos entre os terrenos das barracas, com um sorriso maroto nos lbios.
A voz de Joan soava junto aos ouvidos da filha.
	Pelo menos voc no vai viver em pecado.
Foi s de tardezinha, depois que Steven e Clyde j tinham ido embora, que April pde ficar a ss com Glen.
Ele estava sentado em uma banqueta diante da imensa janela da loja, fazendo a listas das coisas que ela encomendara. Com uma das pernas apoiada sobre uma almofada e a outra com um curativo, parecia mais  vontade no short que vestira depois de uma ducha bem merecida.
Embora April tivesse insistido em uma pomada antibitica para o arranho de Glen, ele recusou, resmungando algo sobre o desvelo maternal da amiga.
Sorveu longamente o chocolate gelado. Em seguida, tocou no curativo.
	Est preocupada comigo, no ?
	Sim. Preocupada em estrangular voc.
Ele se fez de surpreso.
	O que foi que fiz?
	Voc ligou para meu primo e falou com ele para que nos casasse.
	E da?
	E da que ainda no me decidi. Alm disso, Earl  juiz, o que vai tornar a coisa oficial. Pensei que combinramos um falso casamento, no?
	Mas a  que voc se engana. Lembra-se de sua colega de faculdade que se casou h poucos anos? Ela queria que o pai, pastor, celebrasse no campus, onde eles se conheceram, certo?
April lembrou-se ento, da briga dos amigos nos preparativos, quando souberam que o pai s poderia cas-los na cidade em que era pastor.
	Eles acabaram por fazer o casamento no quintal da casa do pai dela.
	Exato. disse Glen.  Mas ns no vamos fazer o casamento em outro lugar e seu primo no  de Harmony Grove. Sendo assim...
	O casamento no vai valer  April concluiu. Naquele momento, lembrou-se de que deveria estar contando os refrigerantes da geladeira.  Minha tia Frida trabalha no frum. Podemos arranjar a compra da papelada de casa mento, mas acho que no  o caso.
Glen sorriu.
	Ento, voc vai comprar um vestido novo ou usar o da sua me?
	Qual  a pressa? Alm disto, voc ainda no disse como Earl ignorava no ter a licena para casar pessoas de fora de sua cidade.
	Voc conhece Earl.
Ela conhecia Earl, por certo. Seu esquecimento era notrio. Enveredara para a magistratura para pagar as contas, mas seu desejo era ser artista plstico. Toda sua fora criativa era depositada nos quadros a leo que cobriam as paredes da casa e do escritrio.
	Todos os casamentos que realizou, foram no seu escritrio  acrescentou Glen.  Earl disse que este era o
primeiro que o faria viajar.
	Suponho que isto explica que ele no esteja sabendo da regulamentao.
Glen aproximou-se e pegou uma das mos dela, deixando que seus dedos massageassem o dedo anular de April.
	Ento est fechado. Vou ligar para Earl amanh e confirmar o casamento.
Agradecida, apertou a mo dele, sentindo como era forte... protegendo-a e resgatando-a de qualquer apuro. Mais uma vez estava a seu lado. Tinha muito a oferecer.
E ela a receber.
	Todo este preparativo de casamento pode ser de men tirinha, mas no deixa de ser uma deciso importante. Preciso de mais tempo para pensar.
Fora um dia terrvel. A umidade era tanta que parecia sugar a energia do corpo de April. No era o melhor dia para limpar o terreno das barracas. Mas se no fosse hoje, no haveria outra oportunidade antes dos acampan-tes chegarem.
O suor escorria-lhe por entre os seios, molhando sua camisa. Glen no parecia melhor. At seus cabelos, que sempre agitavam-se em todas as direes, estavam colados  cabea. Fazendo uma pausa, tirou a camiseta azul-marinho e enxugou o rosto com ela.
April parou e apoiou-se no ancinho, admirando os largos ombros de Glen, a superfcie brilhante de seu peito e a cintura delgada, recoberta pelo jeans justo, cortado na altura do joelho.
Como se tivesse sentido os olhos dela sobre a pele, Glen atirou a camiseta sobre o banco e olhou-a.
	O que foi?
Embaraada, ela moveu o ancinho desajeitadamente.
	Estava pensando por que Steven est demorando tanto para voltar. Ele j deveria estar aqui.
Um bom tempo se passara desde que o garoto levara o trator para um canto afastado do acampamento, onde deveria descarregar o lixo coletado.
Glen ergueu o serrote que usava para aparar os galhos das rvores.
	No me preocuparia com ele. Talvez esteja descansando um pouco na loja, refrescando-se no ar-condicionado.
Ela esperava que fosse este o caso.
	Se no voltar logo, vou atrs dele.
O scio sorriu, apontando o serrote na sua direo.
	. Voc vai dar uma boa me. Talvez superprotetora demais, mas boa.
Steven jogou o ltimo galho do trator sobre o monte de ramagens e arbustos secos. Mais tarde, quando o vento se fosse, Glen atearia fogo no monte.
O trator fazia grande estardalhao em sua manobra para voltar aos terrenos, onde estavam os patres. Pelo menos, ali havia sombra. Ao passar seu leno vermelho pela testa, pde sentir a queimadura causada pelo sol.
Havia um lugar onde seria ainda mais refrescante do que os terrenos das barracas. Um mergulho no riacho seria o ideal. Ele bem que merecia uma pausa. O nico seno, era que, para chegar onde queria, teria de atravessar os fundos da propriedade de Bea Turner.
Argumentou consigo mesmo por trs segundos. A velha ranzinza no estaria no quintal em um dia quente daqueles, calculou. Era s cuidar para no chamar-lhe a ateno.
Steven tirou o trator do campo de viso da viva. Provavelmente, ela estava em casa, dormindo ou fazendo aquelas bonecas feias e ouvindo uma msica antiga, mas ele no queria dar chance para que ela descobrisse seu plano.
Com a camisa na mo, Steven desabotoou o short e continuou a andar em direo  clareira no terreno da sra. Turner. Pulou a cerca e parou, preparando-se para dar uma corrida e desaparecer pelo bosque do outro lado. O trecho mais profundo e frio do riacho ficava escondido em meio s sombras de ramagens frondosas.
J atingia a metade do caminho para descer a ribanceira, quando uma figura rsea apareceu por trs dos arbustos abaixo dele.
	Sra. Turner!  Assustado, Steven deixou cair o short j totalmente afrouxado, at os tornozelos. No instante seguinte, rolava ribanceira abaixo, em uma dana confusa de pernas, cotovelos, mos e joelhos. Foi parar bem junto aos sapatos ortopdicos da velhinha.
	Oh, Jesus amado!
Steven curvou-se sobre as pernas com o short ainda ancorado nos tornozelos. Agachou-se, j tentando vestir-se para recuperar sua dignidade.
Aquilo no era nada bom.
	Sra. Turner, eu posso explicar.
Aproximou-se, tentando falar-lhe e evitar que comeasse a distorcer os fatos. Ela deu alguns passos para trs e comeou a gritar.
	Estupro! Estou sendo estuprada!  Ainda que ningum fosse ouvir.
Steven ficou pasmo diante da acusao. Naquele vestido todo bufante e cor-de-rosa, a velha senhora de cabelos brancos mais parecia um algodo doce, porm longe de ser apetitoso. A pele molenga sob o queixo e os braos agitava-se enquanto gesticulava. Ele fez uma careta.
Por fim, recuperou o controle de sua voz.
	Desculpe-me por dizer isto, senhora, mas no, obrigado.

CAPITULO V

Estou para comear os exerccios de IR. Simmons  anunciou Estela, abrindo a porta para April.  Quer fazer comigo? Mais tarde farei uma salada para ns duas. April riu e disse:
	Ah, voc faz os exerccios melhor do que ele. Em seguida, admirou-se quando a irm jogou-lhe uma malha de ginstica, com manchas de leopardo.
	Use esta. Vou pegar outra para mim.
Esteia saiu, e April foi ao lavabo para colocar a roupa colante. Ao voltar, Esteia vestia outra malha de leopardo. A sua figura pequena, os cabelos loiros e os olhos verdes faziam-na realmente parecer um felino.
	Perfeito para uma futura vov  observou April.
	Voc est com cime.
J comeando os exerccios, confessou.
	De certo modo, sim, estou.
Esteia olhou-a bem dentro dos olhos.
	Desta coisa colante?
	No. De voc ser av.
	Ah, voc deve ter tomado muito sol na cabea.
	 que no se pode ser av, sem ser me, antes.
	Espere a...  disse Esteia, comeando a dar chutes no ar.  E seu relgio biolgico batendo.
	Feito o Big-Ben.
	Ento, tenha um beb.
April hesitou diante da ideia do que exatamente contar  irm mais velha. Queria uma opinio imparcial,
e Esteia sempre fora honesta com ela. April optou pela abordagem mais direta.
	Estive em uma clnica de inseminao.
Esteia parou com os chutes no ar.
	Ainda lhe restam alguns anos frteis, maninha. Espere um pouco. Voc encontrar algum.
April no queria discusso sobre a rapidez com que queria aquele filho e adiantou-se.
	J tenho um doador muito adequado.
Continuaram os exerccios para as pernas, de maneira sincronizada.
	Acho que deve lembrar-se de que a natureza quer que os bebs se faam na relao entre um homem e uma mulher. No entre uma mulher e um tubo de ensaio.
	No  bem assim  insistiu April.  A clnica tem feito muitas mulheres felizes e o processo  muito profissional.
	Ento por que est me contando isto? Parece que voc j se decidiu.
	Tive uma proposta.
Os olhos de Esteia brilharam.
	S que no  bem o que voc est pensando.
Ento ps-se a falar da proposta de Glen e do casamento falso que ele sugeriu, depois de ela insistir em que uma ligao de verdade s iria acabar com a amizade deles.
	Assim, ele continua  frente do acampamento, e eu fao a inseminao artificial, sem comprometer minha situao.
Estela desligou o vdeo e sentou-se no cho, cruzando as pernas, fazendo um gesto para que April a acompanhasse.
	Por que voc no se casa de verdade? Ele no  Eddie Brock, voc sabe. Alm do mais, Glen est apaixonado por voc h anos.
	Quem disse?
	Qualquer um que tem olhos pode ver.
	Se voc est falando dos convites que me faz o tempo todo...  brincadeira dele.
Esteia pousou as mos sobre as de April.
	E s ver a preocupao dele com voc. Ento, para quando  o casamento?
	Se formos realmente encarar esta histria, acho que a reunio em famlia  o momento ideal.
	Vai ser em maio. Vai economizar um bocado em refrigerantes.
	Voc acha que este falso casamento  uma ideia estpida?  perguntou April.
Inclinando-se sobre o sof, Esteia pressionou uma grande almofada contra a testa. Aquele gesto fez April lembrar as vezes que, com clicas, apertava algo macio e quente contra o abdmen, para alivi-las. Mas sabia que a dor de Esteia era mais profunda. Vinha do corao.
	Nicole  a melhor coisa que j me aconteceu  disse, tranquila.  Ela  tudo para mim, e eu desejo que voc tambm tenha algum assim to especial. Mas, se eu tivesse a chance de poder refazer tudo, preferiria no t-la trazido ao mundo, evitando que passasse pelos momentos difceis que teve de enfrentar.
	Mame sempre diz que nunca se colocou contra o nascimento da neta, mas sei que Nicole sente-se responsvel pela tenso entre vocs duas.
	No  s a mame. Principalmente, era o falatrio dos vizinhos tacanhas e os colegas que queriam saber por que Nicole no tinha pai. Era o que a afetava.
April lembrou-se da confuso que houve quando Esteia recusou-se a dar o nome do pai de Nicole para a certido de nascimento. Quando o jovem namorado negou a paternidade, Esteia insistiu em que preferia que sua filha no tivesse pai algum, do que ser rejeitada por ele.
	Mas  claro que as pessoas esto mais tolerantes, vinte anos depois, no?
	Maninha, estamos falando de Harmony Grove. Sugiro que se case com Glen Radway e deixe a natureza agir entre vocs dois.
April estava em cima da cama e estudou a situao. Era assustador para ambos, pois nunca deixara-o ir to longe. Mas agora, de repente, ele decidira que no estava mais disposto a continuar dentro do bolso.
Tudo mudava. Devia saber. Ele crescera demais para continuar na palma de sua mo. Ento resignou-se diante dos desgnios da natureza.
	Por favor, venha  ela implorava, tentando alcanar seu plo macio. O esquilinho tremia e, embora tivesse virado o quarto de pernas para o ar, estava agora com medo de ter dado seu primeiro passo sem ela.
Na corrida desenfreada pelo quarto, virara o abajur, fizera cair a caixa de jias e quase derrubara a cortina por cima deles.
Seus olhinhos miravam April, excitados.
	Agora!  April insistiu, mas o animal no estava pronto para atender ao comando.  Bem. Se voc no vem at mim, eu vou at voc.
Em seguida tentou, em outra posio, mas sem sucesso, aproximar-se dele.
	Vou subir na cabeceira se for preciso.  Por fim, frustrada, desistiu. E disse:  Vocs homens no valem os problemas que do.  Falou mais para si mesma do que para o esquilo que a espiava do sarrafo da cortina.
Por alguns segundos, deixou-se levar pela fantasia de um mundo sem homens. No haveria mais guerras, nem injustias salariais nem a impacincia de ficar ligado em apenas um canal de televiso. E,  claro, no haveria mais bebs.
Nem Glen. De repente, a fantasia perdera a graa.
A porta do quarto abriu-se, e Glen entrou.
	Trouxe a cesta que voc pediu.
	Pensei que voc no chegaria nunca  disse ela. Foi to sincera que surpreendeu-se, percebendo que o alvio era mais pela chegada de Glen e os pensamentos que a dominara havia pouco. No entanto, sem perder tempo em examinar a questo a fundo, comeou a explicar por que chamara o amigo.  Rocky pulou do meu bolso e saiu derrubando tudo. Acho que ele quebrou meu vaso de cristal.
	Onde est ele?
	Ali em cima.  O pequenino animal estava sentado sobre o sarrafo, balanando a calda.  Tentei faz-lo descer, mas ele s fica me olhando com aqueles olhinhos pretos.
	Parece que seu beb est clamando por independncia. Receio que caia.
Glen subiu na cama, recolheu o esquilo e colocou-o na cesta.
	Voc no pode guard-lo em casa para sempre.
April sentiu-se relutante diante do comentrio do amigo.
Aquilo acontecia toda vez que adotava um animalzinho. Sabia que j era a hora de libert-lo, mas sempre parecia cedo demais.
	E, por falar em liberdade, seu policial favorito apareceu para dizer que Steven est detido na casa de me
nores pelo que aconteceu com a sra. Turner. S volta daqui uma semana.
	Pobre Steven.
Quando resolveram dar um emprego de meio perodo ao garoto, era para que ele aprendesse a realizar com satisfao o trabalho manual. Steven fora avaliado como um menino que no sabia discernir entre o certo e o errado e sem estabilidade no lar. Comeara a andar em pssimas companhias. Quando um dos amigos dissera que ia comprar um carro usado, Steven ingenuamente acreditou nele e acompanhou-o em um passeio com outros amigos. Quando foram parados pela polcia, vrios sacos plsticos com drogas foram descobertos no porta-malas. Embora dissesse que no sabia das drogas, nada pde fazer para provar sua inocncia.
Mais uma vez fora vtima de seu julgamento insuficiente. No havia nada que ela ou Glen pudessem fazer quanto quela nova confuso. A no ser esperar o fim da semana e torcer para que a experincia no acalentasse seu dio.
	E, para piorar as coisas, ele estava sendo til para ajudar nos preparativos da reunio. At fizera uma lista das tarefas a cumprir antes do dia do encontro.
Glen, esfregando o queixo, disse:
	Por acaso, ele lembrou-se de encomendar um bolo de casamento nesta lista?
	Andei pensando na sua proposta.
	Ento, decidiu que vai se casar comigo?
	Casar de mentirinha.  Ela fez questo de lembrar.
	Que seja.
	Acho que temos de definir as condies antes de seguirmos com o plano.
	Voc quer assinar um acordo pr-nupcial?
	No exatamente. Mas acho que devemos discutir sobre os preparativos. Para que no haja surpresas para nenhum dos dois.
Os olhos de Glen pareciam procurar o que ia na alma de April.
	Diga quais so seus termos.
Era muito gentil da parte dele fazer o que estava fazendo, e April no queria ofend-lo, listando uma srie de normas. Por outro lado, queria evitar desentendimentos posteriores.
	Se a sua oferta ainda est de p, gostaria que voc fosse o doador para meu beb. Mas acho que devemos restringir este aspecto do casamento puramente aos negcios. O que significa que a concepo ser realizada na clnica.
Ela no tinha certeza, mas pareceu-lhe que havia um qu de desapontamento no rosto dele.
	Alguma coisa mais?
	Assim que eu engravidar, faremos um falso divrcio antes de o beb nascer.
	E fazer sua famlia pensar que sou um crpula por deixar voc e o beb em uma hora destas? Acho que no.
	Ser mais fcil para o beb se a transio for antes de seu nascimento.
Ele no disse nada, mas ela podia adivinhar pela retrao de seu maxilar, que no gostara daquele item em especial. J previa tambm que iria gostar menos do seguinte, mas era melhor colocar todas as cartas na mesa naquele instante.
	E quero a guarda exclusiva da criana.
	Mas no vou abandonar meu prprio filho.
Glen no era o tipo de homem que iria assumir as tarefas de pai irresponsavelmente. Sbito, ocorreu a April que a oferta dele tornara-se mais do que a representao temporria de um papel. Era um presente que duraria para o resto da vida. A certido de nascimento no teria uma lacuna no lugar do nome do pai. April sabia que Glen estaria presente nos aniversrios, frias e feriados, e em muitos outros dias.
	Tenho certeza de que faremos um esquema bem satisfatrio de visitas.
	Ento, est feito... voc se casa comigo?
A tenso abandonou o rosto de Glen, e April estendeu-lhe a mo.
	Negcio fechado.
Glen tomou a mo dela, sem apert-la, como April esperava. Erguendo-se do sof, puxou-a, para que ficasse bem diante dele.
	Este  o tipo de negcio que precisa ser fechado com um beijo.
April hesitou.
	Olhe, no acho que...
	Sei que  estranho para voc, mas ter de se acostumar a isto se quiser convencer sua famlia de que somos marido e mulher.
Ela achou que ele tinha razo, mas parecia-lhe que as coisas estavam complicando-se mais do que previra. Erguendo o queixo, fechou os olhos resoluta e entreabriu os lbios suavemente.
As mos de Glen envolveram-lhe o corpo, afagando-a. April abriu os olhos e viu o amigo sorrindo para ela. Por fim, ele deu-lhe um grande abrao.
	Buddy, eu...
	No me chame assim. Veja-me como seu marido.
Havia algo de to urgente e sincero em suas palavras, que April ficou assustada. Ainda estava sob o efeito daquela frase quando ele beijou-lhe a boca.
Era um beijo terno e cheio de promessas. Promessas que April no sabia se podia aceitar. Porm, ainda que relutante, sucumbiu  deliciosa explorao da boca dele.
Tinha de ficar na ponta dos ps para manter as mos em torno da nuca dele. Os corpos ficaram ainda mais prximos, fazendo-a sentir o calor de seu peito contra o dela. Um arrepio correu-lhe a espinha.
O desejo de Glen no podia ser ocultado, seu corpo procurava o de April. A razo dizia-lhe que se afastasse do homem que ameaava virar sua vida de cabea para baixo, mas o corpo queria ficar ali, no calor daquele abrao.
J ficara a portas fechadas com Glen antes, mas at ento, jamais se imaginara em um quarto com ele. Talvez tivesse pensado nisto uma ou duas vezes, durante a longa amizade.
Mas no deveria estar sonhando acordada com aquilo. O casamento seria fictcio, a gravidez seria por inseminao artificial, como se Glen no fosse o doador.
April interrompeu o beijo e encarou o homem que sempre fora seu amigo e protetor. Ele a olhou cheio de pacincia e algo mais. Algo que ela no estava preparada a identificar. Pela primeira vez, desde que se conheciam, imaginou Glen Radway como seu marido. E o quadro que via, de certa forma, a assustava e agradava ao mesmo tempo.
Ela esperava estar fazendo bem em casar-se de menti-rinha, mais do que isto, esperava que fossem capaz de distinguir entre a vida de verdade e aquela que iriam fingir.
	Como voc deixou que eles fizessem isto?  April perguntou para Glen, que sentava-se, rindo, a seu lado.   como se cometssemos uma fraude.
	Mas estamos cometendo  admitiu ele.  Porm, nada impede que aproveitemos a situao.
	No vamos ficar com nenhum destes presentes. Fica tudo na caixa. Quando a farsa acabar, devolvemos.
	Estraga-prazeres.
	Ora vejam, os pombinhos sentados ali, trocando segredos!  exclamou a prima Ardath. Em seguida, voltou-se para Glen e acrescentou:  No  comum vermos o noivo no ch de cozinha da noiva.
	April no me deixou faltar  respondeu Glen.
	Ah! Que doce falar assim  rebateu a prima.
	 verdade. No consegui dissuadi-lo de vir.
	Vocs dois so do outro mundo  disse Ardath, com um sorriso, passando por eles para pegar outro pedao de bolo.
As brincadeiras do ch de cozinha sequer tinham comeado, e Glen j insistia em participar delas. Surpreendeu a todos ganhando o prmio de quem sabia mais ttulos de canes romnticas e distraiu-os contando coisas que April fizera na infncia.
Uma das brincadeiras requeria que Glen beijasse April toda vez que ela dissesse algo relacionado com o quarto. April tentou pr um fim naquilo, mas ele no deixou.
Quando comeou a abrir os presentes, os beijos aumentaram. Os tapetinhos que a av Cole mandara, arrancaram um beijo casto, o que divertiu as visitas de modo especial. April corou. Sentia-se cada vez mais tola com aquela farsa e j abria outro presente, quando Nicole falou:
	Ela rasgou uma fita. Significa que vai ter pelo menos um beb.
April deixou o pacote cair. Era como se seu segredo estivesse exposto a todos.
	E uma fita rosa  disse Glen, sorrindo.  Talvez queira dizer que ser uma menina.
O presente era um porta controle-remotos. Ele olhou para Esteia, com o rosto iluminado e agradecido, erguendo o presente, em um brinde.
	No sei se vai ser muito til, j que a televiso de April, na sala de visita, s pega dois canais.
	Tudo bem  retrucou April, esquecendo ingenuamente o jogo das falas.  Tenho outra televiso no quarto.
A sala encheu-se com as vozes dos presentes dizendo:
	Beije a noiva!
O beijo de Glen comeara tmido,-mas firme. Por sua vez, April fingia estar envergonhada.
No entanto, Glen teve outra ideia. No tinha mais pressa. Quando April tentou afastar-se, ele levou uma das mos at sua nuca e pediu-lhe que ficassem abraados mais algum tempo.
Estava determinado a conquist-la. Uma vez que ela se acostumasse com a ideia de fingir que ele era seu marido, era uma questo de tempo. Quando abrisse os olhos, veria a possibilidade de um casamento real.
	Isso, Glen  incentivou Ardath.
Naquele instante, viu que a noiva corada no era mais uma representao. Virou o rosto devagar.
	Estamos constrangendo a vov.
Glen olhou para a velha senhora e piscou-lhe. A av, acomodada em uma espreguiadeira, sorriu e fez um gesto com a cabea.
Glen entregou outro presente a April. Ele tinha que ser cuidadoso para no ir muito rpido. No deixaria que um momento de pressa descuidada arruinasse seus planos.
	Tome, rasgue outra fita. Esta  azul.
A fita teria deslizado ao toque de April, mas Glen pensava que duas crianas, uma de cada sexo, seria perfeito. Era um delicado par de castiais de prata.
	Ardath, so lindos  disse April.
	Quando eu os vi, pareceram perfeitos para um jantar romntico. Espero que gostem.
	Com certeza  reforou Glen. Parecia estar se divertindo com o teatro. April pensou em dizer-lhe que fosse com calma, mas no teve oportunidade de faz-lo, sem que ningum ouvisse.
Glen chamou a ateno dos parentes.
	Ningum tem mais nada para faz-la dizer palavras do quarto, outra vez?  Em seguida, piscou para April.
Nicole entregou-lhes trs caixas grandes. Uma maior do que a outra.
	Aqui vai. Vov, mame e eu compramos juntas.
A primeira era um conjunto de malas. Glen pegou uma das malas e admirou-a.
	Est ser tima para o rali do prximo inverno.
	Olhe dentro dela  sugeriu Nicole.  Mas tenha cuidado com o zper.
Ele abriu o fecho, tomando cuidado para no amassar o que estivesse ali dentro e puxou um roupo branco. Glen levantou e mostrou a pea para todos.
	Acho que  um pouco pequena.
Joan Hanson sorriu com um canto da boca e disse.
	No  para voc vestir, Glen. E para voc tirar.
	Mame!  April no podia acreditar no que ouvia.
Depois de todos aqueles anos, submetida s lies do que era e do que deixava de ser o comportamento de uma dama, sua me vinha agora com comentrios maliciosos.
	Tudo bem, querida. Ele  seu futuro marido.
	Mas ns no...
	No, o qu, querida?  Glen adiantou-se, abraando-lhe a cintura.
Sabia o que ela estava para dizer... que eles no usariam o roupo, pois no fariam amor. A clnica se encarregaria deste aspecto da unio. Mas seria tolice admitir aquilo no ch de cozinha. April corrigiu-se.
	No vamos tornar pblica uma conversa de quarto. Esteia tocou o sino e pediu outro beijo.
Na verdade, April gostava da sensao de t-lo to prximo, admirando-a com um olhar apaixonado, o que faz qualquer mulher saber que  a nica. Que ator maravilhoso ele era.
Quando abaixou a cabea sobre a dela, April lembrou-se de que precisava respirar. Encheu os pulmes de ar sentindo os seios tocando-lhe o peito. Como no notara antes a rigidez daqueles msculos, nem a largura daqueles ombros?
No deveria deixar que ele levasse aquela brincadeira to longe. No deveria permitir que a provocasse, fazendo-a desejar o que no era para ser desejado. E mais, no deveria ver nele um homem, mas sim o amigo querido e confivel.
O beijo atrapalhara todo e qualquer pensamento racional. Os braos dele a envolviam firmemente, talvez para impedi-la de cair. April gostava de sentir seu corpo contra o dele, gostava do jeito que sugava delicadamente seus lbios. Sem perceber que o fazia, comeou a corresponder queles beijos com uma febre que jamais teria experimentado antes.
	Acho que vocs deveriam dar outro presente para eles desembrulharem  disse a vov , antes que desembrulhem um ao outro.

CAPITULO VI

April deu um sorriso grato  manta anichada em uma das malas. Era a colcha da vov Hanson.
Ela a desdobrou e examinou os retalhos, cuja histria sabia de cor. Estava tudo ali. Ansiava pelo dia em que contaria as histrias aos seus filhos.
	Obrigada, mame.  Deu um abrao apertado em Joan, esperando que compreendesse o quanto aquela colcha significava para ela.
	J faz muitos anos que o ltimo retalho foi costurado, voc vai ter que comear a pr os seus.
	 mesmo  provocou Nicole.  Talvez este roupo tenha seu lugar a, um dia.
Esteia se aproximou de April e disse baixinho:
	Voc fez um trabalho muito convincente. Este noivado parece mesmo real.
April no olhou para a irm. No estava certa se Esteia percebera ou no o desejo contido naqueles beijos. Temia que a verdade pudesse ser lida em seus olhos.
Glen apontou para um retalho no canto.
	Isto me faz lembrar a camisa de futebol da escola.
	E   confirmou a me de Glen.  Joan acrescentou-o depois daquela final em que voc quebrou o brao. A camiseta estava em frangalhos e amos jog-la fora. E ela recortou o nico pedao que no estava rasgado.
	Mas ele no era da famlia  disse Ardath, sem pensar..
Joan empertigou-se.
	Qualquer pessoa que sente  mesa das refeies em minha casa, tantas vezes quanto ele sentou, pertence  famlia.
Nenhum quadrado, porm, indicava que Eddie Brock, um dia, pertencera  famlia. Fora o marido de April, mas, segundo a colcha, nunca existira.
A voz de Glen se destacou.
	Ficar timo em nosso apartamento novo.
	Que apartamento?  perguntou April, surpresa.
	Voc sabe. Vive dizendo que quer um lugar maior.
No lembrava de ter dito nada parecido e tambm no entendia por que ele trazia aquilo  tona.
	No precisamos mudar j. Mas voc disse que queria um quarto extra.
April engoliu em seco. Ele estava expondo o acordo deles diante de todos? Ergueu as sobrancelhas, tentando adverti-lo para que no dissesse mais nada que viesse a levantar suspeitas sobre o pacto matrimonial entre ambos.
	Voc sabe. Para o beb.  Voltando-se para os demais, disse.  Queremos comear logo.
	Ento, vo gostar de abrir o prximo presente  disse Esteia, com o olhar malicioso.  Ele e o roupo devem ajudar nesta tentativa de aumentar a famlia.
	timo!  exclamou Glen, contente, rasgando o papel.
Descobriu uma frasqueira, que fazia parte do conjunto.  Deve ser para voc.
April ergueu a frasqueira, receosa em abri-la. Porm, quanto mais esperava, mais suspense causava entre os observadores. Sem querer chamar ainda mais ateno sobre o presente final, abriu casualmente as fechaduras e puxou um envelope contendo um cupom preenchido  mo.
	E um tipo de certificado  Nicole anunciou.  Para uma estada de trs dias na praia.
	Mas eu...  April lanou um olhar para Glen. Ele parecia um garoto que acabara de encontrar uma bicicleta sob a rvore de Natal.
Sabamos que ia dizer isto  interveio a me.  Mas a temporada ainda no comeou e vocs tm um tempinho Para a lua-de-mel. Se Clyde e Steven, ou qualquer outro ajudante no puderem ficar  frente do Recanto Sereno, ns nos revezamos para ficar.
	Eu tambm ajudo  disse Verna Radway.  Qualquer coisa por meu filho e sua linda esposa.
April apertava a ponta do envelope, amassando-a. Glen pegou-lhe o papel das mos e depositou-o no cho. A preocupao estava estampada em seus olhos.
	Tem algo errado?
Maybelline, que dormia prximo  dona,, resolveu comear a brincadeira. Pegou o papel com a boca e saiu andando pela sala com as mulheres a persegui-lo.
Alheia  comoo geral, April respondeu ao amigo.
	Esqueci completamente a lua-de-mel.
Glen, Steven e o tio Jos jogavam peteca. April observava-os. No se cansava de admirar os seus meninos, era como referia-se a eles. Quando deu por si, estava absorta na figura bonita de seu futuro marido, que o sol da tarde acariciava, delineando ainda mais as costas e os ombros.
April percebera vagamente a presena de algum prximo  cerca, do outro lado, mas estava entretida demais com Glen para voltar a ateno para outra coisa.
	Ah, Deus do cu!  ouviu atrs de si.
April voltou-se em direo da voz. A sra. Turner estava encostada  cerca, boquiaberta, as mos agarradas  cerca.
April sorriu. No era a primeira vez que via uma mulher olhando para seu scio.
	Que linda vista, no?
Os olhos da sra. Turner encontraram os de April.
	Ele faz lembrar meu falecido marido. Quando ele era jovem, claro.
Lembrando-se de que os fortes raios de sol poderiam ser excessivos para a septuagenria, April perguntou:
	Gostaria de sentar na sombra? Temos refresco.
A sra. Turner seguiu-a em direo ao caramancho.
	Detesto reclamar  ela comeou.  Mas todo este barulho do acampamento est deprimindo meus canrios. No se alimentam j h algumas horas.
	A tarde est muito abafada e quente  sugeriu April, delicadamente.  Tenho certeza de que seus pssaros esto descansando  sombra.
	No  s isto. Da minha varanda, posso ouvir as risadas e os gritos. J  o suficiente para dar uma dor de cabea.
O campo em que estavam jogando peteca ficava em uma das reas mais prximas da propriedade da sra. Turner, mas o barulho no era tanto a ponto de perturb-la.
	Sra. Turner, a senhora sabia, quando comprou o terreno do sr. Irwim, que fazia parte de um acampamento familiar. Era natural haver crianas brincando por perto.
	Espervamos que a vizinhana se tornasse residencial. Achamos que o antigo dono venderia o lote inteiro.
 Mas Buddy e eu compramos o acampamento e o mantivemos.
	Mais barulhento do que nunca.
O sr. Irwin gastara mais dinheiro e energia tentando ganhar na loteria, do que investindo no acampamento. A venda do lote em que agora estava instalada a vizinha re-clamona, fora uma tentativa de acertar as finanas. Mas o hbito de jogar era para ele como respirar. Quando April mostrou interesse no acampamento, o sr. Irwin agarrou-se  sua primeira oferta.
April inclinou-se para a frente e encheu o copo da vizinha com suco. Era a primeira vez que tinham uma conversa civilizada e racional. Mas o clima de civilidade no durou muito.
	Vejo que aquele menino est trabalhando para voc de novo.
Suas palavras soaram como uma acusao, fazendo com que April se colocasse em defesa de Steven.
	Se a senhora est falando do erro que cometeu por ultrapassar os limites entre nossos terrenos para nadar, ento deve saber que foi punido oficialmente por isto.
	Erro?  A sra. Turner torceu o nariz.  Este  o problema com as crianas de hoje. As pessoas esto sempre tentando achar desculpas para elas.
	E, por vezes, os que esto tentando se emendar no encontram aceitao.
Heather, a pequena prima de April, aproximou-se com Rocky nos braos, pedindo ponche para dar de beber ao esquilo.
	No, Heather, tenho certeza de que ele prefere gua.  April encheu um copo de papel e deixou que Heather o segurasse para que Rocky matasse sua sede.
Quando a menina afastou-se, April se preparou para discutir a inocncia de Steven com a sra. Turner. Mas a vizinha tinha a ateno voltada para a corrida.
Um menino, de uns sete anos, estava rondando as brincadeiras, observando-as com interesse. April no reconheceu a criana. Talvez fosse o filho de um dos amigos da famlia, pensou.
A me de Glen j havia entregado as colheres e as batatas s crianas que se alinhavam para a corrida. Era a brincadeira favorita dos menores, que tentavam equilibrar as batatas durante a corrida at a linha de chegada.
Seguindo o olhar da sra. Turner, April viu Clyde chamar o garotinho solitrio, para que fizessem a corrida juntos. O menino ia segurando a colher com a batata, compenetrado. Quando viu cruzarem a linha em segundo lugar, seu rosto iluminou-se de alegria.
A cena tocara o corao de April. Ao olhar por sobre a mesa, viu que a vizinha tambm estava emocionada. Pela primeira vez, desde que a conhecera, April viu algo de suave no rosto da sra. Turner. Os traos de seus lbios, sempre duros, estavam relaxados. A expresso da velha senhora estava to mudada que continha algo de... uma vov.
	April!  Steven. abordou-a de repente.  Glen disse que est na hora de se aprontar para o casamento.
No mesmo instante, o rosto da sra. Turner endureceu, fazendo os lbios voltarem  expresso costumeira. Ela levantou-se para partir e Steven, assustado, aproximou-se da mesa onde April estava.
	Ah... Eu no vi que Bea, a Cruel, estava com voc  Falou e saiu em retirada.
April acompanhou a sra. Turner at o carrinho de golfe, oferecendo-lhe o brao, o que a anci ignorou.
	Sra. Turner, peo desculpas pela grosseria de Steven.
Glen e eu faremos com que ele se retrate.
	No se incomode. J fui chamada de coisa pior. Quanto a endireitar este menino,  mais fcil ensinar um porco a cantar. Tenha um excelente casamento.
April suspirou, vendo o carrinho afastar-se dali. Por um momento, realmente pensou que ela e a sra. Turner haviam feito algum progresso naquele relacionamento difcil. Por breves minutos, conversaram como vizinhas e no como inimigas.
Estava na hora de fazerem as pazes, embora April se indagasse se era isto que a sra. Turner queria. No gostava de se dar mal com ningum, mas sentia-se incapaz de mudar as coisas.
Sentiu um toque sobre o ombro.
	A sra. Turner?  perguntou Glen.
	Desta vez o problema so os canrios.
Ele puxou o chapu para a testa.
	Parece grave. Talvez devesse procurar um mdico.
	No acho que um mdico resolveria o problema de Bea Turner.
Tampouco seria um mdico que resolveria o problema de Glen Radway. S April possua o remdio.
Esperava que ela entendesse que nada o faria desistir.
	Vamos  disse, empurrando-a para o vestirio.  No vamos deixar que ningum estrague nosso dia. Dentro de uma hora, voc ser a sra. Radway.
	Vou manter meu sobrenome.
	No pode. Precisamos formar um casal: o sr. e sra de tal, para que as pessoas acreditem neste casamento.
	Isto  legal?
Glen esperou que April no notasse sua dvida e respondeu.
	J que chegamos  ponte, vamos atravess-la. Sua me trouxe-lhe o vestido de casamento. O dela.
	Achei que faramos tudo casualmente.
	V em frente e vista-o. Pela mesma razo que precisa desistir do Hanson e comear a usar o Radway. As pessoas esperam isto. Alm do que, vai combinar melhor com meu terno.
April revirou os olhos.
	Voc alugou um terno de casamento para uma cerimnia em um acampamento?
Glen sabia o que ela estava pensando. Nem em seu verdadeiro casamento com Eddie, h dezoito anos, eles tinham
ido to longe. E esta era mais uma razo para que ele quisesse fazer daquele, um dia especial.
	No acha que  demais?
Glen, segurando a porta do vestirio com o p e tomando as mos de April, declarou:
	No  todo dia que um homem se casa. Tudo o que quero  usar roupas bonitas, algumas flores e fotografias de lembrana.  Forou um soluo dramtico, levando uma das mos  testa.  E pedir demais para o dia mais especial de minha vida?
Ouviram o rudo de uma descarga. Era a vov Cole saindo do banheiro.
	Voc  uma menina de sorte, por ter um marido to romntico. Deixe que ele faa o casamento a seu modo, e voc faz do seu jeito hoje  noite.
Os olhos de April arregalaram-se, vendo a vov afastar-se na direo da loja.
	Parece justo  disse Glen, sorrindo. Voltou-se para a porta.  O Earl ainda no chegou, e ningum sabe onde est. Se no aparecer em meia hora, mando algum atrs dele.
Em seguida, saiu em direo  loja. Segundos depois, voltou a cabea na direo de April, que o olhava fixamente.
	Vou mandar Esteia, Nicole e mame Joan para ajudarem voc.
E foi-se.
	Mame Joan?  April murmurou consigo mesma. Precisava ter uma conversa com Glen. Estava levando aquele esquema de casamento muito a srio.
Depois de uma ducha, j metida no vestido que presenciara o casamento da irm e da sobrinha, ainda no havia notcia de Earl. quela altura, todos os convidados j haviam chegado. Os que conheciam bem Earl, especulavam sobre ele ter esquecido o casamento ou, no mnimo, ter se perdido no caminho.
A sala de jogos fora arrumada para a recepo. No centro de uma mesa bem suprida de doces e mentas, havia um bolo de casamento.
L fora, sob o caramancho onde h pouco estivera com a sra. Turner, cadeiras dobrveis haviam sido colocadas sobre o cho de concreto. Faixas de papel crepom e sinos de papel sanfonado enfeitavam as ripas de madeira.
Se fosse um casamento de verdade, April no poderia querer nada melhor. Ou um dia mais bonito. A maioria dos convidados estava  vontade, vestindo short e camiseta. Tudo era simples e despretensioso, exatamente como ela e Glen.
Sentiu-se culpada por tudo no passar de uma grande farsa. April era uma pessoa que no gostava de mentir e aquela brincadeira no combinava com ela.
	No se preocupe  disse um senhor da famlia de Glen.  Tenho certeza de que ele vai aparecer logo, e vocs vo se casar sem mais histrias.
April sorriu, pensando na ironia daquelas palavras. Era exatamente o que ela queria.
Talvez a ausncia do primo fosse um sinal. Se Earl no aparecesse, poderia, facilmente, pr um fim naquela farsa, recusando-se a marcar outra data. Ela deveria passar por um exame mental por ter tido aquela ideia maluca. Glen estava  sua procura.
	V embora  protestou Nicole.  Voc no deve ver a noiva antes do casamento.
	Acho que vi um carro chegando. Pode ser o Earl.
Muitos dentre os convidados voltaram-se para a estrada para verem a nuvem de poeira que se aproximava. Mas April tinha os olhos fixos em Glen.
Nunca o vira to lindo como naquele momento, naquele terno que lhe caa perfeitamente. Habituada a v-lo de jeans ou short, deixou-se deleitar pela elegncia com que se vestira naquele dia.
Era evidente que tentara pentear os cabelos rebeldes. O rosto, barbeado e dourado pelo sol, estava marcado apenas por um raspo de lmina sobre o maxilar. O corte do terno fazia sobressaltar a largura de seus ombros.
Podia ser imaginao de April, mas ele parecia mais alto do que de costume.
	E Earl  anunciou Joan, quando o carro ficou mais prximo.
O magistrado saltou do carro e aproximou-se da multido.
	Um policial idiota me parou por eu estar dez quilometros acima do limite.
Glen e April entreolharam-se.
	O policial Dugg  falaram ao mesmo tempo.
	. Era o nome dele. Disse-lhe que estava indo fazer um casamento. Ele perguntou de quem era o casamento e quando eu falei o nome de vocs, ele me multou.
O juiz bateu nos bolsos da cala, em seguida nos da camisa  procura dos culos.
	Bem, chega com isto  disse Joan, pouco solidria com a lamentao de Earl.  Vamos comear este casamento.
A sra. Radway e Joan conduziram os convidados at o caramancho, sob os protestos de algumas crianas que no queriam deixar o ar-condicionado da sala de jogos.
Muito embora no fizesse parte do protocolo, Glen pegou a mo de April e caminhou com ela at o caramancho. Esperaram atrs do grupo de pessoas que acomodavam-se nas cadeiras.
Ainda segurando a mo de April, voltou-se para olh-la. Vira aquele vestido em Nicole no ano anterior, mas no lembrava que parecia to delicado e feminino.
O vu curto, emoldurava seu rosto bronzeado, destacando os olhos, que brilhavam.
	Est querendo mudar de ideia?
Ela balanou a cabea negativamente.
	Eu tambm no  disse Glen, colocando o brao sobre os ombros dela.  Parece que esperei a vida inteira por este momento.
April piscou.
	Buddy, para mim voc soou real.
Glen percebeu que falara demais.
	April, quero que saiba que no estou fazendo isto por favor. Importo-me demais com voc e...
	Eu sei  disse ela, secamente, para que ele no fosse longe demais.  Voc est fazendo isto pelo acampamento. No se preocupe. No esquecerei que isto  um esquema, para ambos.
	No, no  o que...
Est bem. Eu entendi.
Era exatamente este o problema. Ela no entendia. A sutileza de Glen no estava funcionando. Gostaria de dizer tudo de uma vez.
	April, eu amo voc, e quero que se case comigo. Glen receou que ela ainda confundisse as coisas e acrescentou:  De verdade.
	Eu tambm amo voc, Buddy, e quero casar com voc. De verdade.
April falou mais alto do que o necessrio. Em seguida, inclinou-se para dar-lhe um abrao apertado. Em um sussurro, ao ouvido do noivo, confessou.
Muito bem. Voc  um timo ator.
	Nem tanto, infelizmente.
Alguns amigos de Glen, do tempo da faculdade, haviam trazido um banjo e um violo e dedilhavam agora uma cano romntica dos Carpenters.
Earl disse alguma coisa a Steven, que acenou para que Glen se juntasse a eles. O pai de April veio tom-la do falso noivo, sussurrando algo para ele.
April sorriu para o pai. Estava feliz por ele e sua me terem relevado as diferenas naquele dia. Esteia e Nicole iam  frente dos dois, elegantes. April tinha que admitir que o efeito geral era bastante romntico. E verossmil.
Seu pai tomou-a pelo brao, orgulhoso.
Estou muito feliz por voc, filhinha, Glen  um homem bom. E ser bom para voc.
Mais uma vez April sentiu-se culpada por estar enganando as pessoas que amava. Um duo de banjo j entoava a marcha nupcial. Tarde demais para desistir.
J estavam no meio do caminho, quando April sentiu um arrepio na espinha. Ao final da ala que se abrira entre as cadeiras, estava Glen, olhando para ela. Steven apressou-se em tirar o chapu de Glen, que colocara-o sem prestar ateno, em um gesto que j lhe era habitual. Glen surpreendeu-se com a iniciativa de Steven, o que fez April rir. Sentia-se mais relaxada. Agradeceu s estrelas por ter um amigo to bom, a ponto de sacrificar-se por ela.
O noivo e a noiva pareciam to nervosos, como em um casamento de verdade. Os joelhos de April tremeram quando Earl perguntou se algum tinha alguma objeo quele casamento. Receava que algum levantasse e denunciasse a farsa. Glen compreendeu sua inquietao e apertou-lhe a mo.
Ao fim das promessas, Earl declarou-os marido e mulher e Glen beijou-a, para em seguida sussurrar to baixinho que April mal conseguia ouvir.
	Minha mulher.
O beijo, agora, era diferente. Mais especial. Nunca fora to terno, e os braos de Glen apertaram-na com reverncia. Ainda que tudo fosse uma representao, sentia-se querida. Abraada ao pretenso noivo, April fora tomada pela ideia de que o casamento no teria sido melhor se fosse de verdade.
	No, Rocky!  gritou a pequena Heather.
Ao som de cadeiras arranhadas, o beijo cessou de repente. Ambos voltaram-se para ver o que acontecia.
Uma pelagem cinzenta saltava entre as pessoas, em um ricochetear de ombros e cabeas, entre os quais roava a cauda avermelhada. Algumas pessoas tentavam agarrar o folio, mas as tentativas s faziam com que o esquilo se evadisse ainda mais.
Maybelline entrou na confuso, latindo satisfeito e correndo atrs do bichinho.
Glen segurou o cachorro enquanto April ia atrs do esquilo. O vu parecia assust-lo, ento livrou-se dele, lanando-o  irm. O bichinho pareceu acalmar-se e, tomou-o entre as mos e aninhou-o junto ao peito, para tranqiliz-lo.
Maybelline assistiu ao fim da cerimnia no canil. Glen voltou para junto de April e afagou a cabea do esquilinho. O banjo e a guitarra convidavam os presentes a sentarem-se de novo, enquanto Glen e April faziam o caminho de volta na capela improvisada.

CAPITULO VII

Era um comeo mais do que agitado. I Primeiro, uma abelha sentiu-se atrada pelo perfume do fixador nos cabelos de April. Quando Esteia tentou espantar o inseto, ele picou o rosto da noiva.
Muitos dos convidados j estavam partindo, quando o tio de Glen disse no saber onde colocara o aparelho auditivo. Glen, April e os convivas que ainda estavam l, passaram mais de uma hora procurando o aparelho, at o tio Al lembrar-se de que o pusera no bolso da camisa.
E, obviamente, o policial Dugg no pde deixar de dar um presente de casamento... uma multa por sujarem a estrada. Era uma lata de refrigerante que se soltara das outras amarradas no pra-choque do carro. -
E, por fim, ao chegarem ao hotel depois de duas horas de viagem, tudo que April queria era uma cama s para ela. Quando abriram a porta do quarto, depararam com uma cama de casal.
	Teremos que mudar para outro quarto. Vou chamar a recepo.
	No  disse Glen, j tirando o fone de suas mos.  Se trocarmos de quarto, cobraro uma taxa, e sua me ficar sabendo quando vir a conta no extrato do carto de crdito.
Ele tinha razo. April olhou em volta do quarto, mas no havia sof para servir de cama para um dos dois. Alm da cmoda e dos criados-mudos, havia uma mesa redonda com duas cadeiras de brao.
	E ento? Cara ou coroa?  indagou April.
	O que est fazendo?
	Tentando resolver quem dormir no cho.
	Acho que ningum.  Glen arrebatou a moeda em pleno vo e colocou-a no bolso.  Eu no vou dormir no cho. Nem voc.
	Bem. Espero que fique confortvel em uma cadeira.
Ele a observava cuidadosamente. April j estava bastante nervosa com aquela confuso, e o olhar impiedoso de Glen deixava as coisas ainda piores. Aproximou-se e ela tentou ignor-lo. Ignorar, tambm, o aperto que lhe ia dentro do peito.
	Podemos dormir juntos nesta cama. No tem nada demais.
	Buddy...
	Ns somos amigos h uma vida. Conhecemos um ao outro melhor do que ningum. J nos vimos sem camisa.
April sorriu  lembrana. No primrio, costumavam nadar juntos no poo e, s vezes, camisetas e outras peas eram lanadas  margem.
	As coisas mudaram desde ento.  lembrou-lhe April.
Percebia o olhar dele rondando seu corpo, o que a excitava.
	Com certeza mudaram  respondeu ele.
	Voc tem razo. Estou sendo boba. No h razo para no dormirmos na mesma cama.
Enquanto Glen tirava a camisa, April desviou sua ateno para o armrio,  procura de um cobertor. Enrolou-o feito um tubo, e colocou-o no centro da cama, como uma divisria. Ele tirou a cala, deixando a cicatriz acima do joelho  mostra. April pousou os olhos sobre sua cintura, firme e forte.
Tambm no evitou checar a roupa de baixo. Era de algodo, ampla e confortvel.
Ao sentar-se na cama, Glen ergueu uma das extremidades do cobertor enrolado e procurou os olhos de April.
	Est com medo de mim?
	No. Claro que no.
	Ento, por que precisa disto?
Talvez estivesse com medo de si mesma. Com medo de ue, ao acordar pela manh, gostasse de sentir e ver seu corpo prximo ao dele. Com medo de quebrar a promessa de no confundir de novo amizade com romance. Pegou o cobertor e jogou-o no cho.
	Acho que podemos ficar sem isto.
Abrindo sua mala, April procurou o pijama. Bermudo e camiseta extra-grande.
Havia alguns shorts em tecido, e alguns bustis, mas nada adequado para dormir. Procurou nos outros compartimentos da mala. Nada.
	Qual o problema?
	No consigo achar meu pijama.
	Tudo bem. J ouvi muitas histrias de noivas que ficam nervosas na noite de npcias.
Glen levantou-se e ps-se a procurar, ele mesmo, o tal pijama na mala da amiga. Seu corpo, assim, quase desnudo, era uma miragem. Alguma coisa farfalhou entre suas mos. Era um objeto embrulhado em papel de seda.
	O que  isto?  perguntou, retirando o papel.
O quarto encheu-se de um perfume de rosas, o preferido de Esteia. Junto ao frasco, havia um pedacinho de papel. April tentou peg-lo, mas Glen foi mais rpido.
	Feliz reproduo!  ele leu em voz alta.  Com carinho, Esteia.
April sentiu as faces arderem.
	Voc contou a ela.
	 a nica que sabe. Guardar segredo.
Ele no disse nada.
	Eu no sei de onde ela tirou esta ideia de...  April fez uma pausa, procurando as palavras exatas.  Quero dizer, eu expliquei a ela que esta parte seria na clnica.
Glen estava bastante tentado a dizer, simplesmente, o que pensava. Mas diante do comportamento um tanto arisco da amiga, era melhor ter cuidado.
	Por que nos preocuparmos tanto? Eu conheo o procedimento. E voc, tambm, j que foi casada antes.
	Mas no era este o acordo. Voc disse que estava disposto a ser o doador...
	Voc decide  disse, querendo que ela pensasse que aquilo no fazia a menor diferena.  S achei que voc poderia poupar o dinheiro para os estudos superiores da criana. Ouo dizer que um tratamento de fertilidade fica muito caro, especialmente se houver muitas tentativas.  Ela afastou-se da cama. Glen tentou no sorrir de sua reao.  No tem que decidir agora  ele falou, vestindo a cala.  Por que no pensa no assunto enquanto troca de roupa para dormir? Vou at a recepo arranjar um pouco de gelo para esta picada.
April foi at o banheiro e jogou gua sobre as faces.
As coisas no estavam saindo como planejara. Tudo o que desejava era um bebezinho, .mas as coisas pareciam desmanchar-se  sua frente.
Glen estava sendo realmente srio em sua proposta. O que estava pensando? Conheciam-se h tanto tempo que eram quase como irmos.
 Isto est me deixando doente  falou em alto e bom som para seu reflexo no espelho. Por outro lado, se eram como irmos, por que gostara tanto de seus beijos? Por que estaria desejando afagar o imenso peito do amigo?
O desejo tomava conta dela, era isto. Nos ltimos anos, lanara toda sua energia no acampamento, e agora que estava sozinha com um homem bonito, os hormnios recobravam-se e tomavam conta de seu crebro.
Mas ento por que no ficara assim com os outros homens? Tivera alguns namorados, charmosos, interessantes, com quem poderia ter tido casos mais ardentes. No entanto, por alguma razo, nunca se entusiasmara por nenhum destes namorados.
Tirou as roupas e vestiu o roupo. Pousando as mos sobre os quadris, estudou-se diante do espelho. A cor lhe caa muito bem. As vrias tonalidades de loiro de seu cabelo ganhavam um reflexo mais intenso. E, quanto ao corte, estava perfeito.
O tecido delicado parecia acariciar seu corpo. Ainda cheirava ao perfume de rosas. Sua irm antecipara o desejo que um sentia pelo outro, mas ela no queria atropelar os acontecimentos. Ainda assim, April lambuzou a boca com um creme de pssegos para os lbios.
April escovou os cabelos, deixando-os soltos, como de costume. Talvez, refletiu, devesse pensar em todos os aspectos da proposta de Glen, quanto  poupana. E, quem sabe, se aquela oferta fosse vantajosa, poderia dar uma trgua para seus hormnios.
Ao abrir a porta do banheiro, ele j entrava com um balde de gelo. Sequer incomodara-se em vestir uma camiseta, o que fez April imaginar quantos olhares femininos teria atrado no longo trajeto at a recepo.
Ele fechou a porta sem dar-se ao trabalho de tirar os olhos dela, fazendo-os passearem pelas formas de seus seios, cintura e pernas, voltando para os olhos.
	Ficou muito bem em voc  elogiou, referindo-se ao roupo.  Sua face ainda di?
Ela havia esquecido por completo a picada de abelha, mas viu-se acenar positivamente  pergunta.
Ele afastou-lhe os cabelos do rosto, colocando o gelo sobre a face.
April permaneceu imvel, sem poder olh-lo nos olhos.
Depois de um tempo, ele retirou o gelo e passou o polegar sobre a rea atingida.
	Acho que  o suficiente. Muito remdio pode ser pior que o ferimento.
	Foi um dia longo. Acho que vou dormir agora.
Como um coelhinho assustado, pulou para a cama, apagou a luz e escondeu-se sob as cobertas. Todo o colcho estremeceu quando Glen deitou-se, puxando as cobertas para si.
	Boa noite, Buddy  ela sussurrou.
Ele suspirou e chegou mais perto dela.
	April?
	O que ?
	Gostei muito de nosso casamento, hoje.
Ela sorriu, lembrando-se dos acontecimentos do dia.
	Eu tambm.
At Clyde, danara com April. Os msculos dos ps e dos tornozelos estavam exaustos.
	Voc viu que Steven ensinou-me os passos da moda?
	Vi  disse Glen baixinho.
Sob os lenis, ele enlaou os dedos nos dela.
	Quero pedir-lhe uma coisa.
Ela prendeu a respirao. Ser que iria pression-la para uma resposta, agora? Ela no chegara a nenhuma deciso, ainda.
	Sim?
	Quero lhe dar um beijo de boa-noite.
	Quer?
	Quero.
Ele aproximou-se ainda mais, procurando por ela no escuro. O brao roou-lhe o peito ao estender a mo sobre o queixo para virar o rosto dela na direo do seu.
Antes que April esboasse qualquer reao, os lbios de Glen cobriram os dela. April massageava-lhe os ombros com as mos, que desceram at os braos. Mas, em vez de empurr-lo, fez com que os dedos corressem at a nuca e viessem at o peito, rijo e macio.
Ela jogou a cabea para trs ao sentir o toque de sua mo que massageava-lhe a nuca, aliviando todo cansao e dissolvendo toda a resistncia.
	April, querida  ele murmurou entre os lbios.
	Hum...
	Deixe que eu lhe faa um beb. Agora.
	Acho que...  comeou inebriada pela proximidade entre os corpos.  ...est bem.
Glen abaixou a cabea, buscando o decote do roupo. Puxando o frgil tecido, exps o seio pequenino, que beijou delicadamente, vrias vezes.
Envolveu-a em um abrao delicioso, aproximando tanto seus corpos que ela podia sentir com deleite, toda sua anatomia.
Embora pudesse, no queria se mover.
	April, tem uma coisa que eu gostaria de contar, antes.
Ela esperou a continuao da frase, sentindo a respirao contra sua nuca.
	O beb vai ter um pai de verdade.
	Eu sei, Buddy. No tenho dvidas de que voc estar sempre presente na vida desta criana.
	No. O que estou querendo dizer  que o beb vai ter um pai legtimo.
April podia jurar que aquele aperto quase imperceptvel nas suas costas nada tinha a ver com paixo.
	O que est tentando dizer, Buddy?
Ele respirou profunda e lentamente, como fazia sempre que tinha ms notcias para ela.
	Lembra-se da histria da sua colega que no podia casar no campus da universidade? Seu pai no tinha licena para realizar casamentos fora do municpio, certo?
April ficou tensa. Pensara o pior, implorando para que estivesse errada.
	Bem, acontece que Earl disse alguma coisa sobre a lei ter mudado h poucos anos.  April estava pasma, sem conseguir reagir.  Ele pode casar qualquer um dentro do estado da Virgnia.
April ficou com a voz presa na garganta por um momento.
	Quer dizer que estamos realmente casados? No foi um casamento falso?
	 isto.
	Por que no me falou antes?
	Tentei, mas voc...
	Por que esperou at agora?
	Porque, do contrrio, no se casaria comigo.
	Voc sabia antes do casamento? Seu crpula!  Presa naquele forte abrao, esboou um tabefe sem sucesso. Em seguida, tentou chut-lo, mas os ps estavam entrelaados s pernas dele.
	April, querida, contei para voc porque quero que seja minha mulher, no mais amplo sentido da palavra.
Era tudo o que Glen podia fazer para evitar que ela comeasse a bater nele. Achou que merecia o que estava acontecendo, por t-la enganado. Ela nunca o levara a srio, quando convidava-a para sair. Agora que estava oferecendo o corpo e o corao, tinha que saber que o aceitava como uma mulher aceita seu marido.
	Ns fizemos um trato  protestou ela.  E voc me trapaceou.
Glen saltou da cama para proteger-se, e logo sentiu um travesseiro que atingia-lhe a face. Acendeu a luz para poder defender-se de algum objeto mais pesado.
E foi o melhor que pde fazer. Primeiro foi a agenda de telefones, que ela acertou na parede. Em seguida, as pginas
amarelas. A pontaria foi melhor desta vez, mas ele conseguiu desviar-se do volumoso livro.
Ela j pegava a frasqueira. Esta podia machucar.
	April, no acho que seja uma boa ideia.
Hesitante, ela depositou a frasqueira no cho. Mas o cessar-fogo foi breve. Pegou o controle remoto e arremessou-o contra a cintura dele.
	Por que mentiu para mim?
Glen no disse nada. Ficou imaginando por quanto tempo ela ainda ignoraria o despertador.
Ela desabou na cama, a cabea entre as mos.
	Buddy, por que enganou-me, fazendo casar-me com voc?
	Hum...  O que mais poderia dizer? O bvio: estava apaixonado. Tentara chamar-lhe a ateno antes, mas ela sempre achava que era brincadeira. Teria contado sobre a mudana da lei. Mas pareceu-lhe to perfeita a ocasio para que os dois finalmente ficassem juntos. Com o tempo, o veria mais como marido do que como amigo, e acabaria por desejar de verdade ficar casada.
Mas no podia confessar-lhe aqueles pensamentos. April sairia dali mais rpido do que o pensamento.
Sentou-se ao lado dela na cama e manteve-se cauteloso com as palavras.
	No queria correr o risco de que voc voltasse ao plano inicial, isto , se voc, no engravidasse logo.
Os olhos de April, mirando os de Glen, naquele momento, pareciam mais fatigados do que se podia atribuir quele dia agitado.
	Eu preciso de voc  disse Glen, tomando-lhe as mos.
Ela tentou pux-las, mas ele impediu.  No acampamento. No tenho como contratar algum para fazer o que voc faz.
Embora aparentasse certa calma, April no estava gostando nada daquilo. E se ele ainda tivesse alguma dvida sobre isto, o cobertor enrolado no centro da cama, descrevia exatamente o que ela pensava daquela traio.

CAPITULO VIII

April ia e voltava na prainha de areia que se formava junto ao lago do Recanto Sereno. Vrias crianas brincavam ali h mais de uma hora, fazendo castelos de areia. Era uma competio e o vencedor ganharia um balde cheio de doces. Como a nica jurada, April era requisitada o tempo todo pelas crianas para apreciar as obras-primas.
Havia muito trabalho no acampamento, e April senti-se grata por isto. Atirara-se de cabea no papel de diretora de atividades. Ocupada com seus afazeres, no entregava-se  ideia de estar casada. Casada de verdade.
No sabia ao certo se despejar toda sua raiva sobre Glen melhoraria a situao. O que sabia era que aqueles ltimos quinze dias haviam sido os mais divertidos de sua vida. Era um prazer acordar pela manh e ver o rosto de seu melhor amigo. E tambm era reconfortante ter algum com quem partilhar as noites, antes solitrias.
Embora se recusasse a fazer amor com Glen, no incio, para no misturar as coisas at o divrcio, agora era mais uma questo de vergonha. A inibio cedera um pouco na noite do casamento, mas a partir dali, a ideia da consumao do matrimnio a incomodava. Por todos aqueles anos partilhara tudo com ele... esperanas, tristezas, alegrias e ocasies especiais. Mas jamais partilhara seu corpo com ele, e de repente, o amigo tornara-se um estranho.
 Dona April.  Uma mozinha puxava a barra de sua camisa. Era Raquel, uma menina de seis anos e enormes olhos azuis.
April fora solicitada pela garotinha para resolver urna contenda em famlia. O irmo mais velho queria destruir seu castelo.
April sugeriu ao pequeno demolidor que ajudasse a irm. Caso ela ganhasse o prmio, dividiria com ele. Mas o menino no quis saber. Parece que valia mais destruir um castelo de areia, do que depender do prazer incerto de dividir guloseimas com a irm.
Alguns minutos depois, com o castelo de Raquel intacto, April anunciou o premiado. Era de uma garota mais velha, que fizera trs torres pontiagudas. Vendo o olhar entristecido de Raquel, April deu a ela e ao irmo mais novo dois cupons para retirarem uma barra de chocolate grtis na loja.
	Marmelada  disse Steven, a seu lado.
	Quando voc for o dono do acampamento, voc faz as regras como quiser  revidou April.
Um grito rompeu o ar em meio a risadinhas infantis. O pai de Raquel e Jason, o sr. Morgan, deixou sua cadeira e dirigiu-se s crianas. Parecia no estar com pressa, ento no deveria ser coisa grave, deduziu April. Foi quando viu o castelo de Raquel.
O irmo mais velho estava triunfante sobre ele, balanando um saco plstico vazio nas mos. O castelo derretia-se por sob a gua que escorria para baixo. Raquel tinha o rosto molhado de lgrimas, e agora contava a histria para seu pai que logo sossegou os filhos.
A cena fez com que April traasse um paralelo da brincadeira infantil com seu desastrado casamento. Assim como o castelo, aquela unio servia para ficar  mostra. Logo se dissolveria. Tambm por causa de uma criana.
E, por razef que no podia explicar, entristeceu-se.
Ia pensando que era uma pena o castelo ter sido desmanchado diante de sua criadora.
	Voc tem gua oxigenada?  perguntou Steven.
	Claro. Voc se cortou?
	Clyde fez um corte no brao, tentando pegar Rocky. Temos que andar logo.
April deixou as crianas aos cuidados dos pais e caminhou ao lado de Steven at a loja do acampamento.
O jovem empregado abriu a porta da loja para ela entrar na frente. Ele tinha razo. Rocky no teria muita dificuldade para encontrar comida. April levara o pequeno esquilo em muitas das suas excurses pela floresta, onde mostrava-lhe os lugares em que encontrava alimento.
Clyde estava sentado atrs do balco. Ambos os braos, desde as mangas dobradas at o punho, estavam com arranhes avermelhados.
	Seu esquilo est ficando difcil.
April pegou a caixa de primeiros socorros de um dos armrios, e depositou-a sobre o balco, dando incio  limpeza dos ferimentos.
	Ele mordeu voc?
	Nor S de leve, no dedo  informou Clyde quase em um lamento de dor, quando April limpava uma das feridas mais profundas.
Ela sorriu aliviada. Descartou o risco de raiva, mas mordidas de animais poderiam infectar-se facilmente.
Assim que terminou de cuidar do braos de Clyde, dirigiu-se  outra extremidade do balco e pegou a cestinha de Rocky. Ele estava ali, exausto da batalha.
	Posso ir com voc?  perguntou Steven.
April consentiu, e Steven foi carregando a cestinha.
	Para onde vamos lev-lo?  perguntou Steven, quando j estavam l fora.
	Para o carvalho onde eu o encontrei.
	 bastante longe, e ele no vai perturbar os hspedes por causa de comida.
Quando passavam pelo campo onde havia trs semanas jogavam peteca, Glen vinha dos balanos, onde estava apertando alguns parafusos. Chamou-os, acenando com a mo.
April sentiu algo como um alvio quando Glen se aproximou deles, depois de ter guardado as ferramentas na caminhonete.
	Ento voc est voltando para sua antiga morada, hein?  ele disse ao esquilo, enfiando o dedo por entre as frestas da cesta para acarici-lo.  Tenha cuidado. L fora  uma selva.  Glen esfregou a testa.  Acho que Rocky vai ficar bem. Mas no tenho muita certeza sobre sua m--e  disse, soletrando.
	A me dele ficar muito bem  respondeu April.
No entanto, apesar de no querer admitir, estava relutante em deixar seu esquilinho comear uma vida selvagem, cheia de perigos. Estavam quase diante do lugar onde ele havia nascido, e April tentava acalmar-se para no passar sua inquietao para o bichinho.
Quando chegaram bem perto da rvore, April ofereceu um amendoim ao esquilo como isca. Entretido com o alimento, deixou-se retirar de seu confinamento por April que aninhou-o contra o peito, alisando seu plo. Talvez fosse a ltima vez que o visse. A viso de April embaou-se.
Rocky comeou a contorcer-se em seus braos. Ela sabia que no poderia prolongar aquela despedida. Com o corao apertado, colocou-o em um galho da rvore. O pequeno animal foi empoleirar-se no alto do carvalho.
	Garoto de sorte  disse Steven.
Surpresa com o comentrio, April voltou-se para ele.
	Ele conseguiu sua liberdade  explicou, levantando os ombros.
	Ah, Steven  disse April, compreensiva, passando um dos braos pelo ombros do adolescente. Afeioara-se ainda mais ao jovem nos ltimos meses e sabia que sentiria sua falta quando tivesse que terminar seu estgio ali e voltar  casa de menores. Temia que as contendas com a sra. Turner pudessem comprometer sua oportunidade de reintegrar-se  sociedade.
Levantando de novo os ombros, em um evidente sinal de desconforto, Steven afastou-se.
	Preciso voltar e acabar de cortar o mato.
O esquilo parecia saber proteger-se. Estava sob as folhas mais largas da rvore. Em meio ao silncio, April confessou.
	No aguento isto. Vou estar sempre preocupada.
Glen fixou seus olhos castanhos em April.
	Ns o criamos da melhor maneira possvel. O resto  com ele.
	Mas, se tiver dificuldade para se adaptar  vida selvagem? E se no conseguir encontrar comida suficiente?
Agora era a vez de April receber um ombro amigo. Ela no conseguiu resistir ao gesto e entregou-se quele abrao afetuoso.
	Ele encontrar uma fmea  afirmou Glen com a voz suave e segura.
	E eles provavelmente nem nos convidaro para o casamento.
	Com tanto que se amem,  o que importa.
Glen falava do esquilo, April sabia. Mas o recado parecia mais ntimo.
	E se ela no for boa para ele?
Glen apertou seu ombro, e ela percebeu que o corpo dele ficara tenso.
	Eu sou bom para voc, April?
Que pergunta estranha. Por que Glen sara com esta agora?
	Voc  meu melhor amigo, Buddy. Sempre foi e sempre ser.
Ela estava determinada a manter a promessa a todo custo. Suas palavras eram como um lembrete para ambos, que se apressassem para que engravidasse e para que os dois retomassem a antiga e cmoda relao de bons amigos.
	No estou falando disto  persistiu ele.
April sentiu-se corar.
	Ah voc est querendo dizer... Claro! Voc  inteligente. Tem personalidade. Est em tima forma.
Eram traos que gostaria de ver herdados pela criana.
Com o pretexto de que procurava Rocky entre as ramagens, ele afastou-se de April. Se achava que era to maravilhoso, ento por que no faziam amor? Ou ainda, por que no deixava que ele a amasse?
Ele tinha esperanas de que, ao fazer o papel de esposa, veria o que perdera por t-lo evitado antes. Infelizmente, Glen sentia que estava to longe de conquist-la como sempre esteve.
Perdera muito tempo esperando que April percebesse que tinham sido feitos um para o outro. E no tinha a inteno de passar por aquele casamento, esperando que ela casse em si.
Sentiu os msculos da nuca e das costas relaxarem ao perceber que o amava, sim. Podia no admitir; ou pior, podia dizer que o amava como o melhor amigo; mas, no fundo, o amava. Ele tinha certeza disto. Tambm tinha certeza de que se aceitasse esta verdade, o amaria como uma mulher ama seu marido.
Talvez o que devesse fazer era mostrar a April o que j sabia: que a pretensa amizade era to conveniente quanto um falso casamento.
	J  hora de dizer adeus a Rocky. Ele no pode comear a vida nova, sem deixar a velha para trs.
J era tempo, tambm, de dizerem adeus  velha maneira de se relacionarem.
Uma vez que tomara aquela deciso, Glen teria de conduzi-la para a nova vida. Aquilo podia dar resultados bastante satisfatrios. Para ambos.
O policial Alexandre Dugg encostava-se na porta da caminhonete que Glen estacionara alguns momentos antes.
	Voc est extrapolando, Dugg  disse Glen, sem prembulos.  Quero que saia de minha propriedade. Agora.
	Acho que no. Estou aqui em misso oficial.
Para tristeza de Dugg, Glen no pareceu impressionado.
	Meu Deus, voc no est atarefado?
April observava o policial, espantada por ele estar com as faces vermelhas, como queimadas pelo frio, o que nada tinha a ver com o calor de junho.
	Ainda  sexta a tarde. Ser que no  cedo demais para voc j ter comeado o trabalho de tira?
April deu-lhe uma cotovelada, esperando que no se deixasse levar pela provocao do homenzinho.
	Riam se quiserem, nas prximas eleies, serei o xerife  Dugg falou como um menino defendendo o brinquedo escolhido no parquinho. Como se tivesse reconhecido o prprio tom de voz, tentou ser mais autoritrio ao anunciar a que viera.  Entendi que vocs estavam criando um animal selvagem como se fosse de estimao. Sem licena.
Ela ficou pensando qual seria a multa por esta infrao. Esperava que no desse em outra viagem at a cadeia. Glen abriu os braos em um gesto largo.
	Eu no tenho nenhum animal selvagem  disse ao policial. Voltou-se inocente para April.  E voc? Voc tem um animal selvagem?
April ergueu as palmas das mos. A pequena coleira vermelha que ficava atada ao pescoo de Rocky pendia de sua mo direita.
	Eu no.
O policial olhava para o casal, intrigado com a provocao.
	No  porque vocs so os empresrios mais bem-sucedidos de Harmony Grove, que podem desrespeitar a lei que prometi defender. No vou ser complacente com isto e deixar os eleitores pensarem que eu fao favores.
Fez uma pausa de efeito.
	Estou acusando vocs por negligncia com a natureza, o que d uma multa de mais de duzentos e cinquenta dlares.
Tinha acabado de escrever, quando comeou a farejar o ar.
	Sinto cheiro de fumaa.
	Qual o problema, Dugg? Eles aumentaram sua quota de acusaes por dia? Provavelmente,  a sua amiga sra. Turner queimando galhos secos.
April voltou-se para o marido.
	Acho que no, Buddy. A sra. Turner sempre tem algum para fazer isto, por causa da asma.
Os trs voltaram-se em direo ao terreno da sra. Turner. Uma fumaa espessa e negra subia no ar.
	Ah, no. No  uma fogueira.
	 aquele trombadinha de novo  acusou o policial.  Sei que ele est por trs disto.
Correu at o carro e, atravs do rdio, anunciou um incndio descontrolado. Em seguida, acenou para que os dois o acompanhassem, e desapareceu na estrada de terra.
Glen esperou April entrar na caminhonete, e ps-se a caminho atrs do policial.
Felizmente, o carro de Glen era equipado com gales de gua para emergncias. Mas April sabia que a gua no seria suficiente e chamou Clyde pelo telefone celular. Ao atender, disse que Steven estava com ele.
Aliviada, voltou-se para Glen para contar a boa nova.
	Steven est na loja. Ele tem um libi.
	Pois   Clyde continuou.  Voc pode ficar orgulhosa deste menino. Ele deu duro cortando o mato dos fundos.
April ouvia as palavras que Clyde dirigia ao adolescente. April sentiu-se mal consigo mesma. Esquecera-se de que ele fora terminar o servio depois de t-los deixado com o esquilo. O caminho que tomara conduzia direto  propriedade da sra. Turner.
Ela desligou o telefone e verbalizou seus receios para Glen, que nada disse, apenas cerrou os dentes com fora. Ele tambm temia que Steven tivesse ateado fogo em represlia s atitudes antipticas da velha.
Uma fileira de seis grandes montes de feno separava o acampamento, do terreno da sra. Turner. Quatro dos montes estavam em chamas, lanando a fumaa preta pelo ar.
Dugg retirara um pequeno extintor do porta-malas de seu carro, esborrifando o lquido sem sucesso contra as labaredas. A sra. Turner estava fazendo mais progresso com o esguicho do jardim, mas o fogo destrua facilmente o monte de feno.
Glen no se incomodou com a gua da caminhonete.
	O nico jeito de acabar com o fogo  abafarmos e encharcarmos os montes.
Dito isto, pegou uma grande p e atacou o monte mais comprometido pelo fogo.
April pde ver que a sra. Turner estava lutando por uma batalha perdida. Lgrimas escorriam pelas faces enrugadas.
	Minhas rosas! Vo ser consumidas pelo fogo.
April nada podia dizer a respeito. As flores, frescas e rosadas, curvavam-se ao calor intenso.
	Sra. Turner, sua sade  mais importante do que as flores  disse, como uma fogueira no totalmente extinta, retirando o esguicho das mos tortas da vizinha.  Por que no vem comigo e senta para tomar flego?
Dugg continuou a atacar com o esguicho, enquanto April levava a velha senhora para dentro da casa. A sra. Turner recusou-se entrar, mas sentou-se na varanda de onde podia ver os homens lutando contra o fogo.
Alguns minutos depois, o bombeiro chegava. Puxando gua do riacho em que Steven pretendia nadar algumas semanas atrs, os homens do fogo puseram fim ao incndio.
	 aquele menino  disse a sra. Turner, quando April levantava-se para partir.  Est remoendo a raiva contra mim.
A sra. Turner estava certa quanto a Steven estar remoendo raiva contra ela. Mas, para April, ele no arriscaria a vida daquela mulher, ou a dos hspedes, para vingar-se.
Pelo menos, esperava que no.
	No sei sra. Turner. Tudo o que posso dizer  que espero que a senhora esteja errada.
	Veremos quem est certa ou errada  prometeu a velha.  Vou pedir ao comandante dos bombeiros que d incio a uma investigao.
Cedo naquele dia, Glen fora obrigado a apagar um incndio. Agora, tentava comear um. Com April.
O problema  que ela estava preocupada com Steven. Onde ele teria ateado fogo, e o que aconteceria se fosse o responsvel?
J de banho tomado e vestida para dormir, passou pelo sof onde ele estava sentado. Usava o enorme short bege e a camiseta extra-grande que sua irm escondera para que no fosse usada na noite de npcias. Surpreendentemente, a viso no era nada desagradvel. Sua figura delicada, contrastava com as linhas bem definidas dos msculos das pernas.
Da segunda vez que passou por Glen, ele pegou-a pelo brao e puxou-a para que sentasse a seu lado.
	Voc est tensa. Deixe que a relaxe.
Quando enfim sentou, ele descruzou as pernas para dar-lhe espao entre elas e deu incio a um lento massagear dos msculos da nuca e dos ombros. April pendeu a cabea para trs, enquanto ele submergia os dedos nos cachos loiros de seus cabelos macios, deleitando-se com a sensao.
	Hum, Buddy, seus dedos so mgicos.
"V com calma", disse a si mesmo. "No apresse as coisas". No a queria apenas naquela noite, mas por todas as noites de sua vida.
A primeira vez tinha que ser especial. Queria mostrar a April que aquele seria um ato de amor. Pretendia, naquela noite, derrubar as barreiras que ela erguera.
Mas teria que jogar suas cartas com muita cautela. Por nada, poderia assust-la. E, depois de todos estes anos, no queria arriscar-se a perd-la.
April relaxou completamente os ombros, entregando-os ao delicioso  toque das mos de Glen. Que amigo precioso ele era. Tentando acalm-la depois de um dia to atribulado, em um misto de emoes e preocupao.
Ela sentiu o seu corpo mais prximo.
 J faz duas semanas que casamos. No acha que j est na hora de iniciarmos este seu negcio de produzir um beb?
Os ombros dela ficaram tensos de novo, para em seguida relaxarem sob a presso dos fortes dedos de Glen.
Ele tinha razo em tentar a concepo agora. Se engravidasse naquele ms ou no prximo, o beb nasceria no incio da primavera, antes da temporada de vero. Infelizmente, sentia-se pouco  vontade para seguir a via mais direta com Glen.
April ainda ponderava sobre a ideia da clnica de inseminao. Por outro lado, e como Glen j dissera, no havia necessidade de gastar tanto dinheiro em uma coisa que podiam fazer sem dificuldade. Ficava imaginando se ele ainda estava interessado.
Ser que fazendo o que fariam, as coisas mudariam para sempre entre os dois?  claro que sim, pensou. Mas seria capaz de lidar com o novo rumo das coisas, depois de introduzirem o sexo na vida que tinham em comum?
	Quanto mais cedo voc engravidar, mais cedo voltar ao trabalho  disse, tentando dissipar as dvidas da amiga.
E mais cedo poderia voltar  sua vida solitria, pensou April, como se terminasse a frase para ele.
	Voc est certo  concordou.  Tem certeza de que quer fazer isto?
	 um trabalho rduo. Mas algum tem que dar conta dele.
Eles se levantaram e foram para o quarto.
Na cama, ento, April j no estava to relutante. Mas, sentindo que precisava relaxar ainda mais, sugeriu que apagassem a luz. 
Grande ideia. Talvez assim no visse como estava trmula. Por outro lado, podia ser que ele gostasse de v-la assim.
Quando Glen a tocou, sentiu-se invadida por uma sensao quente e gostosa e parou de tremer. Era estranho como a reao do corpo podia ser diferente da reao do crebro. Talvez se mergulhasse fundo naquele prazer, daria um fim temporrio aos desejos fsicos e enfrentasse, depois, mais um longo perodo de celibato at casar-se de verdade.
Com ternura, ele tocou a face de April, o nariz, os lbios, beijando cada parte do rosto. Os toques e beijos foram descendo at a nuca. Quando tocou a camiseta, levantou a barra e despejou uma poro de beijos dos seios at o umbigo. Arrepiada e entregue  deliciosa sensao de ter uma parte quase esquecida de sua anatomia revigorada pelas carcias do amigo, April esqueceu a hesitao.
Apesar do seu entusiasmo naquele momento, e da sua disposio para ir adiante com o plano de fazer um beb com Glen, alguma coisa parecia det-la. Era como um espio que no podia ver e que se recusava a ir embora.
	Buddy, voc puxou as cortinas?
	Puxei, por qu?
	 como se algum estivesse nos espiando.
Ele riu e puxou-a para si.
	E a agitao da primeira vez, querida.
	No, acho que no. E algo muito esquisito, mesmo.
Ouviu-o suspirar e afastar-se para acender o abajur. Piscando contra o repentino feixe de luz, ps-se a procurar algo pelo quarto. Quando os olhos terminaram a volta sobre o seu lado da cama, viu dois enormes olhos castanhos e um focinho reluzente. Era Maybelline, curioso e inquieto.
	Ah, no! Agora?
Antes que April se descobrisse para saltar da cama, Glen saiu, levando o co para o ptio.
Em seguida, voltou para terminar o que comeara.

CAPITULO IX

Vamos  disse Nicole, puxando-a pela mo e empurrando-a para dentro da quarta loja, naquela manh.  Vamos acabar o que comeamos.
April, apesar de a ideia no lhe apetecer muito, deixara-se levar por Nicole a uma galeria de lojas s para bebs.
Voc no est exausta? Eu achava que grvidas deveriam ficar repousando e serem servidas pelas outras pessoas.
Nicole riu, e April adorou o som de sua risada. Estaria feliz tambm, se estivesse grvida.
 Ah, no seja to dondoca  disse-lhe a sobrinha.  Se voc pode trabalhar por quatorze horas por dia no acampamento, pode me ajudar a comprar um bero.
No eram as andanas que a incomodavam. Eram as mulheres grvidas e as mes com criancinhas agarradas s suas pernas. Era a inveja que a consumia por dentro, ao ver as pessoas de sorte preparando um cantinho para os filhos adorados.
Fazia quase uma semana que ela e Glen haviam comeado a tentar a to sonhada gravidez. Cedo demais para saberem se dera certo.
Quanto aos seus desejos mais ntimos, pareciam ter pegado fogo, depois daquela primeira vez. E ainda que dissesse a si mesma que os encontros eram apenas fsicos e pretendiam a produo de um beb, no conseguia negar o quanto ansiava pelo momento do dia em que estariam a ss no quarto.
	O que voc acha deste aqui?  Nicole apontou para um bero colonial.
	 parecido com o que voc viu na outra loja, s que dez dlares mais caro.
A ateno de Nicole desviou-se do bero ao ver uma jovem me passeando com seu recm-nascido.
	Acho que  Teresa.
Ao som de seu nome, a jovem virou-se e abriu um luminoso sorriso para Nicole. Logo, as duas estavam entretidas, uma com as novidades da outra.
	Ah, desculpe. No apresentei vocs. Esta  minha tia April. Teresa e eu fizemos o colegial juntas. E este pequenino  William.
As duas amigas recomearam a conversa que girava em torno das peripcias de Teresa e seu marido como pais de primeira viagem. April, apesar de focar seu olhar nas duas, deixou-se distrair por longos minutos at que ouviu palavras mais speras de Teresa.
	No posso deixar que ele cometa um monte de erros com meu beb.  Ela falava sobre o marido. Seus olhos encheram-se de lgrimas.  Deus do cu, estou chorando por causa dele de novo. Fico pensando se vale tudo o que estou passando para mant-lo por perto.
April e Nicole entreolharam-se chocadas e disseram em unssono:
	O beb?
	Claro que no! Estava falando de Bill.  to desastrado quando chega perto de William.
Desabou a chorar novamente. Nicole amparou a amiga com um abrao.
	Voc no acha que est exagerando um pouco?
	 o que Bill fica me dizendo. Diz que eu estou em depresso ps-parto.
	Talvez voc precise de um tempo para descansar  sugeriu April. A jovem me deveria estar exausta.
	Voc tem razo  Teresa concordou.  Preciso de um tempo sem Bill. Por mim, ele poderia voltar para a casa da me. No, no foi isto que...
Nicole estava to horrorizada quanto April com o contedo daquela conversa.
	Acho que minha tia quis dizer que voc precisa de um tempo sem o beb. Posso ir  sua casa esta noite para voc e Bill sarem. Vocs dois precisam de um tempo sozinhos.
	No sei se vale o esforo, do jeito que as coisas esto...
William contorceu-se nos braos da me como se protestasse contra suas palavras.
	s vezes  comeou April , quando h uma grande mudana em nossa vida, ficamos confusas.  quando precisamos voltar  nossa base.
	Quer dizer que devo voltar para a casa de minha me?
	No. Quero dizer que voc deve perguntar a si mesma o que sente por Bill.
Talvez April devesse calar-se. No podia ser boa conselheira naquele domnio. Mas foi em frente.
	Voc o ama?
Teresa fez um gesto afirmativo com a cabea.
	E ele ama voc?
Outro gesto afirmativo.
	Aposto que ele faria qualquer coisa para ver voc e o beb felizes e saudveis, no ?
Mais uma afirmativa.
	Ento, vocs deveriam ficar juntos. Alm disto, o beb precisa de ambos. -
Nicole anotou o nmero de seu telefone para a amiga e disse-lhe que ligasse sempre que precisasse de uma bab. E combinaram de se visitar quando o beb de Nicole tivesse nascido.
Quanto  April, suas prprias palavras ainda ecoavam na cabea, muito tempo depois de j estar em casa.
	Como sou hipcrita!  recriminou-se. Glen estava na loja, atrs da caixa registradora. A nica testemunha ali era Maybelline.
Sim, era hipcrita. As mesmas coisas que perguntara para Teresa, poderia perguntar a si prpria.
Amava Glen? April fez uma longa pausa. Por mais louco que pudesse ser e por mais que tentasse negar, sabia que a resposta era um sonoro sim.
Aquela ideia assustava-a. Por todos estes anos, Glen fora seu melhor amigo. Colega. Aliado. Protetor. E desde seu divrcio, April insistiu em que permanecessem apenas amigos, a fim de evitar que um romance destrusse uma longa
amizade.
O problema era que os sentimentos romnticos eram os que rondavam o relacionamento com seu melhor amigo.
Desabou sobre o sof. Casara-se com o homem errado, por isto seu primeiro casamento no dera certo.
Glen, April e Eddie formavam um trio no colgio. Eram amigos ntimos. Eddie tomara Glen como dolo e tentava ser igual a ele. Se Glen jogasse beisebol, Eddie tambm jogava, tentando obter a medalha. Se Glen vestia um determinado tipo de roupa, l vinha Eddie, alguns dias depois, com roupas muito parecidas, s que melhores. I     Quando Glen entrou na faculdade, April naturalmente |voltou-se para Eddie, para preencher a lacuna que ficara. Conseguia ver agora, que, quanto mais falava da falta que Glen fazia, mais Eddie empenhava-se em deix-la frgil. Pareceu natural que os dois se voltassem um para o outro para esquecerem o vazio deixado por Glen. A distncia proporciona uma viso bem mais clara das coisas. Assim foi que April descobriu que Eddie no idolatrava Glen, mas, na verdade, invejava-o. Sua competitividade levou-o a persegui-la e, por fim, a casar-se com ela.
Na poca, no reconhecera que estava apaixonada por Glen, mas Eddie percebera com certeza. No era de estranhar que o casamento deles no dera certo, nem que a amizade viesse a ficar to amarga.
April suspirou. Maybelline eriou as orelhas ao som do suspiro e desobedeceu  regra de no sentar-se nos sofs. April no se deu ao trabalho de ralhar com ele. Acariciou os plos do co, com o olhar perdido.
Seu pensamento voou para a ltima pergunta que fizera  Teresa. Ele ama voc?
No havia dvidas de que ele a amava. O que precisava realmente saber era como a amava. Como irm? Possivelmente. Como a melhor amiga? Seguramente. Como mulher? April continuou pensando.
No havia dvidas de que ele a amara fisicamente, como um marido ama sua mulher. No entanto, aquilo no lhe dizia nada, a no ser que a desejava, assim como ela tambm o desejava.
Glen deixara claro quando se oferecera para casar-se com ela, que aquele era um casamento de convenincia. Precisava dela no acampamento. Ele era um hbil homem de negcios, mas nem todo empresrio faria um sacrifcio to pessoal.
Seria possvel que estivesse cego ao seu amor por April, como estivera em relao a ele? Era verdade que propusera o casamento para manter o sucesso do acampamento. Mas, e se ao longo da vida em comum, mascarada por aquele casamento, ele enxergasse o quanto a amava? O casamento de convenincia se transformaria em paixo.
Isto a fez passar para outra questo. Ele no faria qualquer coisa para ter certeza de que ela e o beb estavam felizes e saudveis? Claro que sim. Nunca tivera dvidas de que sempre estaria presente, casado ou no. E o mesmo podia ser dito para o beb, fosse geneticamente seu, ou de um doador annimo.
Reconsiderou o conselho que dera a Teresa. Vocs devem ficar juntos. Alm disto, o beb precisa de ambos.
Por que demorara tanto em ver tudo isto e ficar consciente do que sentia?
Poderia criar o filho sozinha. Muitas mulheres o faziam e eram bem-sucedidas. Mas no seu caso havia um homem envolvido... um homem que amava muito e que seria o melhor pai do mundo.
Uma coisa  enfrentar a maternidade sozinha porque no havia outra escolha. No entanto, era uma grande besteira tornar-se me solteira quando tinha um marido excelente.
Agora s restava abrir os olhos de Glen para o amor que existia entre eles. E sabia exatamente como agir.
Queria seduzi-lo. Mostrar-lhe que era mais do que sexo o que estavam fazendo. Era amor.
April lanou os braos em volta do pescoo de Maybelline que retribuiu, lambendo-lhe as faces.
	Eu o amo. Tudo o que tenho a fazer agora  faz-lo ver que me ama tambm.
Pela primeira vez desde que ela e Glen concordaram sobre o plano de fazerem um beb, desejou no engravidar imediatamente. Se acontecesse muito em breve, uma gravidez poderia representar o fim do relacionamento para eles.
April procurava a aparelhagem de som para o concurso de dana que seria naquela noite. Estava tudo guardado no forro do vestirio. Aquele era um dos seus eventos favoritos e os adolescentes, para os quais acampar no era a coisa mais interessante, divertiam-se mais do que ningum naquela noite.
Por esta razo, conseguira um entendimento com a casa de menores para que liberasse Steven todas as sextas  noite. Alegara que precisava dos prstimos dele mas, na verdade, buscava um meio de socializ-lo fora do trabalho.
	Ei, o que  isto?  perguntou Steven, puxando uma grande caixa da prateleira e colocando junto do aparelho de som.
	Ah, no pegue isto. E uma velharia que o ex-proprietrio deixou para trs.
	Cara, estes so os maiores discos que j vi.  Steven ergueu uma das capas de cartolina e perguntou:  Quem  Glen Miller?
April comeou a examinar o achado. Eram discos de vinil de orquestras de jazz e cantores populares dos anos vinte, trinta e quarenta. E embora as capas estivessem cobertas de poeira, os discos estavam em bom estado.
	Uau! No ouo isto h anos  disse April, para quem aquela msica j era antiga h trinta anos. Veio-lhe  lembrana a imagem das tardes preguiosas que passava ouvindo aquelas canes sobre a colcha de retalhos da famlia.
	Glen Miller teve uma das melhores bandas nos anos quarenta.
	Nossa, eu no sabia que voc era to velha.  Steven deu um pulo para trs antes de levar um bem merecido tapa.
Ela pediu que fosse at a loja pegar umas lanternas japonesas para pendurar em volta da pista da dana. Em seguida, enfiou a sacola de coisas que comprara para a revelao daquela noite para dentro do armrio do forro e trancou a porta.
Havia velas perfumadas, o roupo branco que no usara desde a noite do casamento e um isopor contendo uma garrafa de champanhe e morangos. Tentava lembrar se tudo estava ali, quando a voz de Glen interrompeu seu pensamento.
	Adivinhe quem eu encontrei l em baixo?
Ardath deu uma risadinha e aproximou-se, encostando o p na caixa de discos.
Na pressa de esconder as ferramentas da seduo, April esquecera de guardar a caixa de msica velha. Para no correr o risco de que seu plano fosse descoberto por Ardath ou Glen, April achou melhor deixar a caixa em um canto para depois dar um destino a ela.
	Voc deixou seus brincos na casa de Nicole ontem. Como eu estava passando por aqui a caminho de casa, ofereci-me para traz-los  explicou Ardath.
	Obrigada. Mas no precisava se incomodar.
Eram brincos delicados e muito femininos. April poderia us-los quela noite. No podia perder seu plano de vista. Guardou os brincos no bolso do short.
	Pedi a Ardath que ficasse e danasse ao ritmo de discoteca depois.
	 mesmo. Por favor, Fique. Mas nada de discoteca. A maioria dos adolescentes preferem os ritmos novos.
Ardath aceitou o convite satisfeita e ajudou-os com as luzes. Alguns minutos depois, a voz de Steven era ouvida no alto-falante, anunciando que a competio logo comearia.
Clyde era o disque-jquei, animando a danceteria improvisada com uma mistura de ritmos: baladas, rock para todos os gostos, merengue e outros. Um pouco de tudo.
Quando a festa comeou. April tentou trazer Glen para a pista de dana para um nmero rpido, mas ele se recusou, dizendo que estava cansado demais. Sem dar-se por vencida, tentou de novo, algumas msicas depois, j mais lentas.
Glen hesitou, mas no recusou o convite. Parecia no estar muito interessado em danar com ela. Mas, apesar da atitude um tanto quanto fria, apertava-a contra si com firmeza, e April apreciava a proximidade. A brisa noturna acariciava-lhes os braos e as pernas.
O contato com o cheiro e a pele de Glen deixaram-na louca por um beijo. Mas ali,  sua direita, estava Steven observando-os. A ideia de beij-lo longamente na boca era tentadora, mas deixaria para depois. Por ora, tentava tir-lo daquele desnimo.
	Ainda so nove e meia  murmurou junto a seu ouvido.  Se voc est cansado assim to cedo, talvez eu devesse ter procurado algum bem mais jovem. Ouvi dizer que me ninos com dezenove anos esto no auge sexual.
Ele respirou fundo e apertou-a contra o peito. Era bvio que havia interesse.
	Voc no quer um garoto. Alm do mais, eu estou sempre no auge.
No havia dvidas quanto a isto. Glen era um homem quase insacivel. Tudo o que April tinha a fazer, era mostrar a ele que no queria apenas um casamento temporrio. Mas para sempre.
Dois vultos,  entrada da discoteca improvisada, proje-taram suas sombras na pista de dana. Um deles ajudava o outro a subir o ltimo degrau.
	Ah, no!  resmungou Glen.   a dupla dinmica.

CAPITULO X

A sra. Turner e o policial atravessavam a pista para ir ao encontro de April.
A balada terminou e em seguida algo mais agitado comeou a tocar. Steven aumentou o volume em alguns de-cibis. Notara, com certeza, a chegada dos visitantes, e este era seu jeito de mostrar insatisfao.
April seguiu Glen at o banco que ficava ao longo da cerca e puxou uma cadeira mais confortvel para a velha senhora, que aceitou sem pestanejar.
A sra. Turner gritava para ser ouvida.
	Pensei que aquele menino deveria estar cumprindo o recolhimento a esta hora.
	O diretor da casa de menores deu-lhe permisso para ficar at mais tarde por seu bom comportamento.  Era tudo que April podia dizer para defender Steven de tantos ataques.
	Bom comportamento? Sei. Este pequeno delinquente pegou meu material de artesanato e as ferramentas de meu falecido marido. E, antes que esquea, ps fogo nas minhas rosas.
April aguentara desaforos demais. Embora a causa do fogo ainda no tivesse sido descoberta e o desaparecimento daquelas coisas no fosse explicvel, acusaes to mesquinhas no resolveriam a situao.
	Bem ningum perguntou...
Glen silenciou-a rapidamente colocando seu brao sobre os ombros dela.
	Ento, esta  a razo da visita dos senhores?
Ardath observava a cena, curiosa.
O policial Dugg encheu o peito, encolheu a barriga e deu um passo  frente.
	Fui notificado de que o barulho de sua festa pode ser ouvido na propriedade contgua.
A prima de April teve de sufocar o riso, diante de figura to formal.
	Investigando a situao, descobrimos que a msica pode ser ouvida na casa da sra. Turner.
	Voc quer dizer, o barulho  emendou a vizinha.
Mesmo depois que Steven aumentara o volume, April duvidava de que fosse possvel a msica chegar a tal distncia.
Glen fez sinal a Steven para que abaixasse um pouco o som.
	A msica cessar s onze horas  assegurou  vizinha.
	Msica!  grunhiu a sra. Turner.  No meu tempo, os gatos eram postos para correr quando faziam este barulho.
Ardath intrometeu-se risonha na conversa.
	Eu teria proposto algo mais suave, mas no para adolescentes da idade deles.
	Mais suave!  exclamou April.  Fiquem aqui. Eu volto em um instante.
Afastou-se em direo ao vestirio, a poucos metros dali, para recuperar a caixa de discos de vinil, pedindo  prima que a acompanhasse. Por sorte, no.armrio do forro, havia um toca-discos, herana da vov Hanson.
As duas voltaram, carregando as antiguidades que logo tornaram-se o centro das atenes. Ardath achou o fio e ligou o aparelho na tomada.
	April, se a garotada acha discoteca antiga, imagine esta velharia.
	Velharia!  A sra. Turner veio conferir a pilha de discos.  Eram canes para a gente se apaixonar.
Meninos e meninas mostraram-se bastante interessados no museu que aparecera de repente.
April respirou fundo. Era um risco. Mas teria que tentar alguma coisa. Talvez um convite despretensioso pudesse mudar o clima entre os vizinhos. Se no, pelo menos teria tentado.
	Como se danava na poca em que a senhora tinha a idade desta meninada? Poderia nos mostrar?
April no precisou perguntar duas vezes. Clyde juntou-se ao grupo de espectadores que se formara em torno da sra. Turner que balanava a saia de malha viscosa para danar.
No comeo, alguns dos adolescentes riram. Mas logo tentavam imitar os passos da velha senhora. Na hora do mam-bo, todos danavam e o par mais animado era Ardath e o policial Dugg.
Naquela noite, Glen parecia distrado. Era como se quisesse manter uma certa distncia, e ela consolou-se, lembrando que poderia estar lutando contra os prprios sentimentos, como ela mesma fizera por tantos anos.
Quando a ltima nota acabou de soar no toca-discos, todos pareciam felizes com o novo aprendizado. April sorriu satisfeita por seu gesto impulsivo ter proporcionado a diverso em comum entre pessoas to diferentes.
A sra. Turner deu um sorriso meio amarelo para os jovens  sua volta.
	Viram? No rejeitem o que ainda no experimentaram.
	A senhora est certa  disse Steven com as mos na cintura.  No se deve rejeitar uma msica antes de ouvi-la. Agora  a sua vez de experimentar nossos passos.
Surpreendentemente, a velha senhora aceitou o desafio e ps-se a imitar os meninos e as meninas que danavam na pista.
April observava a cena, mais do que contente, enquanto a sra. Turner tentava dar todos os passos que os jovens hspedes ensinavam a ela. Era a segunda vez que via um sorriso no rosto da vizinha.
Quanto ao policial Dugg, parecia ter esquecido comple-tamente a razo inicial de sua visita. Era como se Ardath houvesse lanado um feitio no homenzinho, transformando-o em um simptico danarino.
April olhou para o cu negro e fixou-se em uma estrela de brilho intenso. Embora no fosse a primeira estrela da noite, fez um pedido. Desejou que a magia daquela noite se estendesse sobre ela e Glen.
 Que tal uma msica mais lenta agora?  sugeriu Glen.
Enquanto a meninada decidia que disco tocar, a sra. Turner pegou um disco e colocou-o na vitrola. O ritmo doce e romntico de uma valsa encheu o ar leve da noite.
Como ningum ali soubesse acompanhar os passos da sra. Turner, incluindo Alexander e Glen, Clyde veio com sua cadeira at o centro da pista.
Se me permite.  Estendeu o brao  senhora.
No foram mais que alguns segundos de hesitao antes dos dois sarem valsando pelo salo improvisado. Era certo que a cadeira atrapalhou um pouco no comeo, mas em pouco tempo, os dois danavam com graa, sem a menor timidez.
Com um sorriso que derreteria o mais duro dos coraes, a sra. Turner no tirava os olhos de seu par. Quanto a Clyde, era como se visse a Miss Universo em pessoa.
	Acho que estou ficando doente  disse Glen. Em se guida, sentou-se no banco.
Depois que tudo se acabou e os dois achavam-se a ss, April ficou tentada a dizer umas tantas coisas a respeito do mau humor do marido. Mas mordeu a lngua, julgando no ser este o melhor caminho para a seduo.
O local onde haviam improvisado a pista de dana era o favorito deles para descansarem depois de um dia pesado no acampamento. Podiam sentar-se em um banco e verem uma grajide parte do acampamento dali. E a noite estava perfumada e estrelada.
Eles poderiam estender colchonetes e se deitarem ali no cho. Normalmente, apenas conversavam sobre os acontecimentos do dia e os planos para o seguinte mas, naquela noite, Glen surpreendeu-a.
	Eu vejo voc em casa, April.
	No v ainda.  Ela pensou em abrir o jogo e dizer que tentava seduzi-lo, que se preparara muito para aquele momento.
Com um gesto rpido, puxou as velas perfumadas que deixara mais  mo antes do final da festa. A chama produziu sombras que danaram por sobre a face de Glen.
	Esperava que pudssemos ficar aqui esta noite, Glen.
	Voc nunca me chamou de Glen antes.
Glen franziu a testa, atitude que ela deveria mudar, e logo, se quisesse realizar suas metas.
No importa qual tenha sido nosso acordo original. No somos mais apenas amigos  ela admitiu.  Somos marido e mulher... no papel e na cama.
Agora, precisavam tornar-se marido e mulher no corao.
Fique comigo. Vamos fazer amor.
A testa no estava mais franzida, mas agora ele parecia perplexo.
	Voc no acha que est frio para a gente ficar aqui fora?
Ela deixou a voz mais grave para parecer sensual.
	Eu aqueo voc.
Enquanto ele se deitava sobre o tapete, April colocava as velas sobre o cho, juntamente com os morangos e serviu dois copos borbulhantes de champanhe. Vestia o roupo branco.
Os olhos de Glen estavam fechados, e parecia que cara no sono. April achou que poderia esperar um outro dia para iniciar sua seduo, mas um dia perdido parecia muita coisa para mostrar a Glen o que queria provar.
Ela mordeu um morango, deixando que os lbios retives-sem a umidade da fruta. Em seguida, beijou a boca de seu marido.
	Hum. Voc est com um gosto bom na boca  disse ele, com a voz rouca.
	No to bom quanto o que voc vai sentir hoje.
Abriu os botes de sua camisa, deixando-lhe o peito desnudo. A pele quente de Glen fez April tremer. Ele buscou-lhe os lbios, e quando sua boca na dele, seca e quente.
April verteu um pouco de champanhe sobre os lbios do marido, que mal os abria. Aos poucos, comeou a bater os dentes, contraindo o maxilar de quando em quando.
	Glen, voc est bem?
	Acho que estou morrendo.
April beijou-o na testa, meio culpada, meio decepcionada.
	Voc est ardendo em febre, Glen. O que est sentindo?
	Meus msculos e minha cabea doem.
Glen passou para o banco. Os sintomas pareciam os de uma doena infantil, talvez a mesma que Heather tivera logo depois do dia do casamento.
April sentou-se ao lado dele. Delicadamente, para no machuc-lo, passou os dedos por sobre as faces at o pescoo. A pele estava quente e inchada. .  Ah, no  disse, sem tempo de auto-censura.
O que ?
Abraou-se a ele, tentando esconder o que ia em seus olhos. Esperava estar errada. Esperava no ser to srio quanto pensava.
	Acho que est com caxumba.
	No deveria estar fora da cama  ralhou April.
	E acho que voc deveria parar de dar ordens.
Imediatamente, Glen arrependeu-se de ter respondido to rispidamente. Exceto por algumas horas no acampamento, resolvendo problemas corriqueiros, April ficara todo o tempo com ele nos ltimos cinco dias.
Levantando-se, dirigiu-se para April que estava de p  janela, olhando para a estrada. Abraou-a pela cintura e enterrou o queixo em sua nuca, pensando no que o mdico havia dito.
Ele tivera uma febre muito alta e lembrava-se das estatsticas apontadas pelo mdico e as duas palavras que no saam de sua cabea: possvel esterilidade. A partir da, pensava desesperadamente nos rumos que seu relacionamento com April iria tomar.
Beijou-a no rosto, arrependido de t-lo feito ao ver as marcas de sua barba espetada que lhe ficaram sobre a pele.
	Desculpe. Tenho sido rude. E que no estou acostumado a ficar parado por tanto tempo.
Ele ficava pensando quanto tempo ainda levaria at que ela sugerisse o fim daquela farsa, para que comeasse a buscar outro pai para seu beb.
April sorriu-lhe com imensa ternura.
	Sei que est se sentido melhor, mas o mdico disse que deve descansar por uma semana. Ento, nem pense em voltar para o trabalho antes de sbado. Por que no procura algo na televiso? Talvez pudssemos jogar um outro jogo?
Jogar o jogo da vida. Era como se no se contentassem com a realidade. Olhou para a mulher que fora sua esposa por to pouco tempo.
	Vou l fora ver se a correspondncia chegou.
	Est bem. Mas no quero ver voc brincando com as crianas. Voc ainda pode estar no perodo de contgio.
Juro solenemente no infectar os filhos dos vizinhos.
Enterrou o chapu na cabea e saiu. L fora, havia um cheiro mido da chuva que acabara de cair.
Retirou o jornal da caixa e checou a correspondncia. Conta do telefone, duas malas-diretas e um envelope endereado para April. Vinha da clnica de inseminao.
Sentiu o estmago revirar de repente. Sabia que no tinha nada a ver com a caxumba. Virando o envelope, notou que no fora bem colado.
Hesitou por um tempo. Embora jamais tivesse abrido a correspondncia de April, sem que ela consentisse, sentiu que aquilo dizia tanto respeito a ele quanto a ela. Ainda que sentindo-se culpado, achou-se no direito de ler o contedo da carta.
Eram duas folhas. A primeira confirmava uma consulta dentro de algumas semanas. A segunda dava a lista de doadores em potencial. At a formao escolar e a carreira profissional de cada um estavam relacionadas. April tinha tudo o que era necessrio para encomendar seu beb. E ele no fazia parte da lista.
A data do carimbo indicava segunda-feira. Trs dias, apenas, depois que cara doente. Ela no perdera tempo para reajustar seus planos. Fora pssimo no ter se dado ao trabalho de conversar com ele.
Talvez achasse que estaria, assim, poupando os sentimentos dele. Afinal, a maioria dos homens ficaria bastante irritada de terem a virilidade questionada.
Dobrou a carta e enfiou-a no envelope, lutando contra o desejo de jog-la no lixo. Em vez disto, juntou-a ao resto da correspondncia, pensando que deveria sel-la de novo.
Com o corao apertado, Glen encarava o fato de que no poderia mais continuar naquela farsa. Assim que encontrou um telefone, resolveu telefonar para uma velha amiga. Sem dvida, Ivone poderia ajud-lo a sair daquela. Antes porm teria de achar sua agendinha preta.	
No mesmo instante em que sentiu-se apto para o trabalho, Glen voltou para o acampamento, com mais empenho do que April julgava ser necessrio. Mas, quando ela tentou adverti-lo de que no deveria ir com tanta sede ao pote, riu de sua preocupao, dizendo que no precisava mais ser a me dele.
Ela tentava faz-lo sentar-se para uma pausa e uma bebida gelada, quando o sino da porta repicou. Era o policial Dugg. Como sempre, aparecendo por nada, pensou, April.
Naquele dia, porm, no estava fardado. Vestia jeans e camisa xadrez, abotoada at o colarinho. Ele cheirava  loo ps-barba.
Glen abria uma lata de soda, e virou o rosto para o policial, uma vez que estava de costas para ele.
	Se voc quer passar despercebido, no vai dar. J reconhecemos seu disfarce.
No estou de servio hoje. Estou procurando por algum.
April mostrou-se irritada.
	Por que voc no d uma folga para o Steven? Ele est fazendo o possvel para melhorar de vida.
	Sei que est.
Glen endireitou-se sobre o banco e voltou-se completa-Lmente para ambos. Era bvio que estava to surpreso quanto April diante das palavras de Alexander Dugg.
	Tivemos uma longa conversa quando lhe dei uma carona na semana passada. Ele no  um mau garoto.
Ento, por que veio aqui hoje?  perguntou April.
O homem diante dela nada tinha a ver com o policial irrogante que conhecia. Parecia cheio de bom senso.
	Fiquei pensando se era possvel voc me dar o telefone le sua prima. Est havendo um festival de dana em Caabias, aqui perto, e como no estou trabalhando, pensei sm convidar Ardath para dar uns passos comigo.
April no conseguia tirar os olhos pasmos do homenzinho. Qual seria a prxima surpresa?
Muito bem. Se seu plano  s danar...  April rasgou um pedacinho de papel e j ia anotando o nmero.  Mas desabotoe este colarinho.
Um sorriso de alvio estampou-se no rosto do policial. April at achou-o simptico.
A ltima surpresa: brincou carinhosamente com Maybel-line e saiu, no sem despedir-se, feliz da vida.
Algumas horas depois, April recebeu um telefonema de uma das antigas namoradas de Glen.
	Nem  preciso cham-lo  disse Ivone.   s dizer que o banco aprovou o financiamento para ele reformar a casa. Vou mandar-lhe a confirmao pelo correio.
April balanou a cabea ao desligar o telefone.
	A Casa do Solteiro.  Era assim que ele chamava sua prpia casa.
Entristecida, April compreendeu que ele estava ansioso para voltar  vida de solteiro. Certa vez, quando perguntou ao amigo por que no tinha se casado, ele respondeu que gostava da busca, e que estava sempre pronto para um caso amoroso.
Ela fora ingnua de pensar que poderia seduzi-lo para um casamento de verdade. Glen era um homem que gostava de sua liberdade. J fizera demais em casar-se com ela e tentar dar o beb que ela tanto queria. April sentiu-se egosta de querer que tambm aceitasse seu amor romntico. No era justo pedir mais.
Enxugando as lgrimas que j brotavam em seus olhos, sups que no era a primeira mulher a pensar que conseguiria faz-lo um pai de famlia.
Com uma tristeza profunda, reconheceu que quanto mais aquele casamento durasse, mais difcil seria deix-lo partir.
Tudo fora um jogo. Mas enquanto jogava, apaixonara-se por Glen.
No importava, agora, o quanto queria um beb. Sabia que no seria a mesma coisa se no fosse de Glen. Ficar sem o filho, por pior que fosse, era uma escolha menos dolorosa do que educar uma criana sem ele. Menos doloroso do que olhar para o filho querido e lembrar-se, dia aps dia, do amor que nunca seria seu.

CAPITULO XI

Naquela noite, Glen parecia surpreso com a repentina deciso de April de cancelar o plano deles quanto ao beb. Quando tentou dizer a ela que estava disposto a ir at o fim, April teve de encher-se de coragem e insistir para que ele voltasse  liberdade.
	Se  por causa da caxumba...
	No, no  isto.
	Minha sade est perfeita.
Como poderia explicar a Glen, quando aceitar a realidade era a coisa mais difcil para ela?
	A vida inteira voc sempre esteve por perto para me salvar. Se estivesse longe, vinha depressa. 
Ela ia e vinha enquanto ele permanecia sentado sobre a cama, que haviam dividido at ento.
	J me aproveitei demais da sua generosidade. Mais do que devia. No posso deixar que continue colocando minhas necessidades na frente de sua felicidade. Vamos pr um fim ao casamento e continuarmos, cada um, com sua vida.
Glen levantou-se e tentou abra-la, mas ela no permitiu. Se aceitasse aquele abrao, nunca mais conseguiria deix-lo.
	E o beb?  perguntou.  Achei que queria a criana, mais que tudo no mundo.
Quisera, no passado. Mas agora sabia que uma centena de filhos no preencheria o vazio que instalara-se em seu corao.
	April, querida, eu quero dar este filho a voc. Quero que seja feliz.
Ele era sincero. O melhor amigo que algum poderia desejar. Mas April, incapaz de olh-lo nos olhos, virou-se.
Estou mais feliz do que nunca.
Naquela noite, Glen no dormiu no apartamento dela, voltando no dia seguinte para pegar suas coisas.
Alguns dias depois, lanou-se de corpo e alma na reforma da casa. A caminho do acampamento, April passava por ali duas vezes por dia, sem apreciar o que via: a nova vida de Glen. April via as mudanas produzidas na casa como prova de que Glen estava feliz de volta  vida de solteiro.
Para piorar as coisas, criou-se um clima estranho entre os dois. Para evitar os longos silncios entre os dois, comearam a trabalhar em reas diferentes do acampamento. Quando eram obrigados a trabalhar lado a lado, nada conversavam. E, quando falavam, era sobre algum problema com os hspedes.
April sentia-se fisicamente triste, dizendo estar doente. Culpava o calor e o sol, mas sabia que era a dor do fim de uma paixo.
Ficou aliviada em saber que, segundo o laudo das autoridades competentes, o incndio prximo  casa da sra. Tur-ner fora causado por combusto espontnea. Feno seco, clima seco e quente.
Era bom saber que Steven no tinha nada a ver com o incndio. Mas uma coisa a intrigava, de umas semanas para c. Era o sumio de alguns objetos dos hspedes e at mesmo do telefone da loja. No entanto, o estranho  que os objetos, na grande maioria, eram de pouco valor e no pareciam ser criteriosamente escolhidos pelo ladro.
Precisava de uma oportunidade para falar com Steven a ss.
Naquela tarde, ambos trabalharam juntos na piscina, e uma vez a tarefa terminada, seguiram para a loja. April no quis entrar imediatamente, chamando Steven de lado.
Odiava ter que tocar no assunto, mas odiava tambm a ideia de que o problema dos furtos continuasse sem resoluo e que seu jovem empregado acabasse levando a culpa.
Voc sabe, Steven que, por causa do seu passado, algumas pessoas pensam que  voc quem est pegando os objetos que desapareceram.
	, eu sei. Uma vez culpado, sempre culpado. Pelo menos a sra. Turner j me deixou em paz.
Tinha razo. Era espantoso ver como a atitude dela mudara desde que viera trabalhar no acampamento, ensinando artesanato aos jovens.
	Voc no  culpado de nada. Est na casa de menores apenas para que fique longe de situaes como a que voc viveu. S quero que me ajude a descobrir este mistrio.
Voc tem alguma ideia?
	J sei. Aposto que  Rocky quem est pegando as coisas. Lembra como ele gostava de pegar qualquer coisa sob o balco e esconder sob o cobertor em sua caixa?
April j sentia-se mais leve, quando lembrou-se do que Rocky gostava realmente.
	No. O que ele fazia era experimentar um pouco da comida sobre as mesas de piquenique.
Por mais que ela quisesse que o roedor fosse a explicao da histria, sabia que no seria a resposta.
	As coisas comearam a desaparecer antes de eu soltar Rocky.
Steven mostrou-se desanimado. Estava sempre sob suspeita, quando o que mais queria era ser aceito por April, Glen e todos do acampamento. Como se fossem sua famlia.
April, de certa forma, intua o desejo do garoto. Tambm desejava uma famlia em torno de si.
Vendo Steven se afastar, algo remexeu-lhe as entranhas, trazendo uma sensao do passado. Quando adolescente, sonhava que seu pai voltaria para deixar a famlia completa. Steven realizaria, um dia, o sonho de ter sua prpria famlia, amando-a e sendo amado por ela.
Para April, a situao era um pouco mais complicada. Entrando na loja, passou a mo sobre o ventre, em um gesto inconsciente.
Cedo teria o que esperava.
Ouvi dizer que tem um filhote encomendado?  perguntou Glen, caminhando ao longo da calada de sua casa.
April quase deixou cair o presente que comprara para ele.
	Mas como voc sabe?
	O zelador do estbulo me contou.
	Contou?  ela ficou pensando como os empregados teriam ficado sabendo da notcia.
	E. Parece que agora teremos que pagar uma taxa a mais pelos prazeres de Daisy.
	Exato.  Ela balanou os braos, imaginando qual seria a melhor maneira de abordar o assunto que viera tratar.  A casa est bonita.
Era velha, mas isto emprestava-lhe um qu aconchegante. Ainda mais, depois da reforma. Sem que Glen dissesse, ela sabia que ele estava ali para ficar. Sentiu um desconforto.
Deixe-me mostrar o resto  disse, pegando sua mo.
Ei, o que  isto?
	 uma coisinha para a casa. Achei que voc poderia usar uma plaquinha sobre a porta da entrada para comemorar o novo visual.
	No precisava...  disse ele sem graa.  Vamos deixar para abrir isto depois. Agora vou mostrar o que fiz por dentro.
	Mas Glen, preciso falar com voc sobre uma coisa...
Ele parou, sem largar a mo de April. Ao contrrio, apertou-a ainda mais.
	Precisamos realmente conversar antes que mais tempo passe.
	Se  sobre os objetos desaparecidos, no acho que Steven tenha feito isto.
	No.  sobre ns.  disse April sria.   sobre este casamento de aparncias. Precisamos ver o que vamos fazer agora.
	Voc quer o divrcio  disse ele, sem alterar a voz.
	Desculpe, mas fiquei meio ocupado com as mudanas aqui. No tive tempo de preencher a papelada.
Antes que April dissesse alguma coisa, Glen continuou andando pela casa e mostrando as alteraes.
Aqui, vou derrubar a parede e fazer uma sala de estar.
Ele deu um sorriso largo, o primeiro sorriso sincero desde que haviam se separado. Glen estava no meio da sala de visitas, falando orgulhoso das alteraes que ainda estava por fazer.
Ento? D a sua opinio de mulher.
Era o que ele queria. Saber se o novo lar agradava ao gosto feminino, para encantar as visitantes.
Olhando  sua volta, April deu-se conta do aconchego do lugar. Era uma casa que qualquer mulher adoraria. Quente e convidativa. O problema era que o convite no trazia seu nome.
Antes que April desse uma resposta, ambos perceberam um movimento no jardim lateral. Seguiram juntos at a janela para ver o que era.
 Maybelline. Ela deve ter seguido voc at aqui.
O cachorro tinha alguma coisa na boca. Era pequeno e cinzento.
Ah, no!  exclamou April.
A cena evocara o incio do vero, quando Maybelline abocanhara Rocky.
Os dois correram, para fora. Glen chegou primeiro, mas April teve tempo de ver Maybelline esconder-se sob o ma-deirame da varanda suspensa.
Instintivamente, April virou o rosto para no ver o co morder o pobre bichinho. Glen j se encarregara de retir-lo da boca de Maybelline que lambia suas faces.
Ei, seu cachorro est me beijando.
Glen riu, e April percebeu que ele voltara para o esconderijo de Maybelline, sob a varanda.
Alguns segundos depois, reaparecendo, Glen pediu a April que erguesse as mos.
	Aqui vai seu esquilo.  Uma coisa cinzenta riscou o ar em sua direo.
Era uma sapato. Ortopdico feminino.
	 da sra. Turner.
	Espere at ver o que achei aqui embaixo.
Sob a placa de trelia quebrada, foram aparecendo todos os objetos tidos como roubados. Inclusive as ferramentas da sra. Turner. Glen riu-se diante da descoberta.
Detesto dizer isto. Mas seu cachorro  um pervertido.
L estava tambm a boneca que faria o papel de Scarlett.
	Parece que voc conseguiu ensinar-lhe a recolher bem as coisas. Deveria estar orgulhosa.
April no acreditava no que via.
	Ah, meu Deus! E todo este tempo Steven foi culpado por estar roubando.  Era como se um peso sasse de suas costas. Mas sua alegria logo acabou ao ouvir as palavras de Glen.
	Tem uma coisa minha que foi roubada e ainda no foi devolvida. Sei quem roubou. E no foi nem Steven nem Maybeline.
	E voc tem ideia de quem pode ter feito isto?
Ele balanou a cabea solene e depositou as mos sobre os braos dela.
Foi voc. Voc roubou meu corao, April.
Quando ela comeou a protestar, ele a interrompeu tomando-a nos braos.
	Est tudo bem. Voc no precisa devolver. S quero que voc pegue o pedao de mim que ficou para trs.
April estava tentada a deixar-se levar pelo prazer daquele abrao. Mas, apesar da doura das palavras de Glen, no conseguia acreditar nelas. Ele estava consciente da razo de sua visita, e comeava a colocar, de novo, as necessidades dela diante de seus desejos.
Esforando-se, at conseguiu dar um tom leve e casual  sua voz.
	Claro que voc no iria deixar esta casa maravilhosa. Por que voc no me permite apresent-lo a uma amiga minha. Ela  bonita e inteligente.
Com corao descompassado, April esperava a resposta.
	Por mais inteligente e bela que sua amiga seja, ela no  voc.
Abraou-a com fora, enquanto ela tentava impedir que lgrimas escorressem dos olhos e molhassem sua camisa.
	Venha aqui. Quero mostrar-lhe uma coisa.  Conduzindo-a para o quintal, apontou o dedo para um canto onde via-se uma caixa de areia, um escorregador e uma casa de bonecas.  No  a casa de um solteiro.  uma casa de famlia.
Quando April ergueu a sobrancelha, confusa, ele riu.
	Acho que me precipitei. Se o mdico estava certo quanto  caxumba, bem, sempre haveria a possibilidade de adotarmos. Ou, se voc quiser experimentar uma gravidez, com certeza estarei com voc em sua consulta na clnica, a semana que vem.
April colocou instintivamente as mos sobre o ventre. As lgrimas eram, agora, de felicidade.
	Voc no sabe?  disse ela, em um tom mais afirmativo do que interrogativo.
Ele no tinha conhecimento da gravidez de April. Aquele tempo todo trabalhando na casa e estava, na verdade, planejando o futuro para ela e para o filho. Sem dvida alguma, April soube que ele a amava muito.
	A consulta era uma resposta  minha primeira visita  clnica. Cancelei-a no dia em que recebi a carta de confirmao.
	Mas eu pensei que voc queria...
	No  s o beb que quero  disse April, percebendo afinal a verdade.  Desde o comeo, meu desejo era ter uma famlia.  Que pudesse amar, e pela qual fosse amada.
April rendeu-se  carcia terna do beijo de seu marido e, feliz, vislumbrou uma vida inteira de ternura.
	Voc sabe, mesmo que no estivesse com um filho seu
na barriga, teria tudo o que desejo em voc.
Ele deu alguns passos para trs, observando-a. Tocou-lhe o ventre delicadamente. April viu a face de Glen iluminar-se de prazer.
Ento, ns vamos ter um beb?
Com um gesto afirmativo e um sorriso, deixando que a alegria tomasse conta daquele momento, April mudou suas vidas para sempre.
Glen tirou o chapu da cabea, e lanou-o no ar, dando um grito de felicidade. April passou os braos em torno de seu pescoo, enquanto ele a erguia, carregando-a at o quarto. A mensagem do presente, inscrita na plaquinha que deveria ser pendurada sobre a porta, parecia ter sido um tanto proftica.
Lar Doce Lar.

EPLOGO

Uma luz azul brilhou no espelho retrovisor, e Glen praguejou alguma coisa baixinho.
Por que est parando? No temos tempo.
Ele olhou para sua mulher aflita, que tentava acomodar-se melhor no banco do passageiro. A respirao dela estava ofegante, mostrando que suas palavras no eram pura lamentao.
	No se preocupe. Vou explicar tudo para o guarda e conseguiremos uma escolta da polcia at o hospital.
Suas palavras soaram calmas, mas seu interior estava agitado. Com a ateno toda voltada para a mulher, mal percebeu o guarda aproximar-se.
	Olha, seu guarda, sei que estava correndo, mas minha mulher...
Tudo bem, colega, no foi por isto que parei voc.
Glen reconheceu a voz de Dugg e voltou-se para encar-lo.
O policial j apalpava os bolsos. Um pouco irritado por ter sido parado por uma questo de menor importncia, como uma advertncia, Glen rangeu os dentes, mas aceitou o papel. April resmungou algo.
	Ou talvez devesse cham-lo de primo  declarou Dugg. Curvou-se para que pudesse dirigir a palavra para os dois ao mesmo tempo.  Ardath disse sim.
O papel era um convite para o casamento. Estudando o rosto embevecido do homenzinho, Glen ficou imaginando se parecera to tolo quando April concordara em ficar casada com ele. Provavelmente.
Meus parabns  disse Glen, o mais rpido e sucinto possvel.  Olha, temos que...
	Ah, tem mais uma coisa. Quando eu estava no frum hoje cedo, ouvi dizer que o juiz aceitou seu pedido de adotar Steven.  Deu um tapinha de congratulaes nas costas de Glen.  Parece que est acrescentando mais uma pessoa  sua famlia, hoje.
April lanou-se para a borda do banco.
Pode dizer duas!
Esquecendo-se de tudo  sua volta, para dedicar toda sua ateno  esposa, Glen perguntou:
O que h, querida?
O rosto de April estampava dor e impacincia. Ele ouvira dizer que mulheres agiam assim, quando estavam prestes a dar a luz.
O que voc acha que ?  um beb. E est vindo agora.
Mais uma vez, ela mudou de posio e pousou a mo na enorme barriga.
	Esperem aqui  disse Dugg.  Vou chamar ajuda pelo rdio.
Glen saiu do carro.
	No precisamos de ajuda. Precisamos de uma escolta policial.
O som da buzina de seu carro parecia alert-lo de que no haveria tempo de irem para o hospital. April tinha um dos ps sobre o painel.
So vinte minutos at o hospital. Voc consegue esperar?
As sobrancelhas de April juntaram-se, em uma expresso de quem implorava. S de pensar que deveria esperar, queria chorar.
	Est bem. Podemos fazer o parto aqui, se preferir.
Ele ajudou-a a passar para o banco de trs.
Dugg voltou trazendo um cobertor e um livro.
	Tive um pequeno treinamento de emergncia mdica.
	Otimo. Voc fica aqui e eu vou ligar o motor.
	Para qu?
	Para poder esquentar um pouco de gua.
Glen tirou seu bluso e ajoelhou-se sobre o cho sujo da estrada. Tomando as mos dela, disse:
	Estou aqui com voc, querida.
Dugg comeou a desdobrar o cobertor.
	Voc fica a  disse a Glen.  Eu direi o que deve fazer.
A contrao passou, e April relaxou um pouco.
	Para que  o cobertor?
O policial ergueu-o entre eles como uma barreira.
Assim no preciso olhar.
Um outro carro parou atrs do veculo da polcia. Embora contasse que o nascimento do beb fosse se dar de uma forma discreta e privada, via chegar mais algum fora do esperado. Deveria ser algum do esquadro voluntrio de resgate.
	Sou do jornal local  anunciou o recm-chegado.  Ouvi pelo rdio que algum est tendo um beb.  O jovem de carinha lavada, aproximou-se.  No se incomodem comigo. Vo em frente com o que estiverem fazendo, e eu vou ficar aqui e tirar algumas fotografias.
	Fotografias!  April gritou.  Glen, no deixe que ele faa isto. Meu cabelo est um horror.
Apesar da averso de Dugg quanto ao milagre da natureza que acontecia diante dele, Glen estava grato pelas instrues que o homenzinho lia do livro.
O ar da manh de primavera era um tanto frio, mas o rosto de April estava coberto de gotculas de suor. Glen nunca a vira to bela, o que no demorou a dizer-lhe. Ela sorriu, e ele no se continha de tanta felicidade.
Ento, seu rosto contorceu-se.
E agora  anunciou.
No instante seguinte, a filha escorregou para os braos do pai. Enquanto ele a aninhava em um brao, ambos eram recompensados com o choro poderoso de uma criana sadia.
	Parabns, mame.  Glen achou que seu peito ia explodir de orgulho.  Temos uma menininha.
	O livro diz que, uma vez que tudo j tiver sado, agasalhe-o bem.  Dugg abaixou o cobertor e espiou o corpinho molhado, ainda com um pouco de placenta. Em seguida, ouviu-se um som surdo contra o cho. O policial desmaiara.
Seguindo as instrues de Dugg, Glen embrulhou a pequenina em seu bluso e passou o presente valioso para os braos da me.
	Vamos cham-la de Jewel  ele sugeriu.  Porque ela  nosso tesouro, longamente esperado.
Ela concordou com um sorriso.
E um nome bonito.
Ei, este no  o cara que est se candidatando a xerife?
Glen fez um gesto afirmativo. A cmara mirou a figura estatelada no cho e foi disparada vrias vezes.
	Agora, todos esto felizes  disse April, aconchegando Jewel em seu peito.  Temos uma linda menininha e Dugg est ganhando a campanha publicitria que queria.

FIM


